O clima entre oposição e situação esquentou ontem na Câmara Municipal. Tudo começou com um discurso pra lá de raivoso do vereador Marco Garcia (PPS). O ex-presidente do Legislativo usou a tribuna para criticar a Prefeitura e atacar o prefeito Gilson de Souza (DEM). Em seu discurso, Marco acusou a Prefeitura de gastar com a realização de serviços de poda de grama que, segundo o vereador, seriam desnecessários. Marco apresentou fotos em um telão de áreas onde máquinas estariam trabalhando. “Eu estou mostrando para onde está indo o dinheiro do aumento do lixo. É para esse tipo de serviço.”
Em seguida, passou a atacar o prefeito Gilson de Souza, que anteontem atribuiu a gestões anteriores parte dos problemas enfrentados pela sua administração, como o rombo provocado pela enxurrada de ações judiciais trabalhistas das férias movidas pelos servidores. Aos berros, Marco chamou o prefeito de mentiroso. “O prefeito é mentiroso. Eu não frequento o gabinete e não vou lá. Quando eu quis ajudar, ele não quis”, esbravejou, ao comentar sobre a reunião na segunda-feira e que contou com a participação de 11 dos 15 vereadores. Gilson convidou todos para prestar esclarecimentos - Marco Garcia (PPS), Adérmis Marini (PSDB), Cristina Vitorino (PRB) e Kaká (PSDB) não compareceram.
Marco criticou as opções que estão sendo estudadas pela Prefeitura para manter as contas equilibradas e evitar um colapso nos serviços municipais. “O prefeito não soube administrar o dinheiro e agora quer aumentar os impostos, falando em revisão de planta genérica do IPTU e da taxa de iluminação. Mas a população, vendo a má gestão, não quer pagar. Não serei cúmplice disso. Isso é balela.”
Nirley de Souza (PP) rebateu. “O senhor está nervoso não sei por quê. O senhor quer ser prefeito e, se assumir, vai entender essa dificuldade. É fácil falar, quero ver administrar. Ver máquina parada e tirar foto é muito fácil. Por que não fez denúncia? Por que não chamou o Ministério Público?”
Marco primeiro afirmou que não seria candidato a prefeito, mas depois voltou atrás: “Eu não serei candidato. Aliás, se eu for, vote em mim e descobrirá (como administrar)”. Ele ainda afirmou que a Câmara na legislatura passada não aprovou o aumento do contrato do lixo. “Estou desafiando a vossa senhoria: traga o projeto de lei que aprovei na legislatura passada.”
Em seguida, Marco passou a atacar Corrêa Neves Jr. (PSD). “Não vi nada disso (discussão sobre a taxa de iluminação e o contrato do lixo) em seu jornal. No governo do Alexandre, tudo era notícia. Agora não é assim. Queria entender por quê. É preciso coragem para denunciar, né, Corrêa”, provocou.
Corrêa falou em seguida. Ao contrário de Marco, estava calmo. “O senhor tem me provocado insistentemente. Não sei por quê. O senhor mistura minha posição política (...) com o jornal. Tem vocação para dar peso a fake news (notícias falsas), baseia sua argumentação em postagem de Facebook, o que é incompatível com a sua história. Deveria era aproveitar sua experiência para ajudar, contribuir. O governo convidou vossa excelência para uma reunião ontem (anteontem). O senhor não foi. Agora foi indelicado e agressivo com o Nirley. Talvez o senhor precise de um floral de Bach para se acalmar e de um remédio para recuperar a memória.”
Contrato do lixo
Em seguida, Corrêa esclareceu sobre o aumento do contrato de lixo. “O senhor não votou porque era presidente (pelo regimento, o presidente só vota quando há empate), mas a Câmara votou a suplementação orçamentária (no final do governo Alexandre Ferreira) para pagar o aumento do contrato do lixo nos últimos três meses (de 2016).” Foram quase R$ 1,2 milhão a mais por mês.
Corrêa afirmou que não existe mesmo projeto de lei específico para a coleta de lixo, porque o aumento foi feito dentro do orçamento enviado por Alexandre Ferreira. “Esse aumento contratual estava dentro do orçamento aprovado por esta casa para o ano de 2017. Nele, havia a previsão de um gasto acima dos R$ 27 milhões (R$ 12 milhões a mais por ano do que se pagava até então).”
Corrêa elogiou o diálogo aberto pelo governo municipal. “Parabenizo o Gilson pela coragem de falar e de se colocar à disposição para esclarecimento de todos.” E encerrou a discussão. “Você pode ser contra ou a favor, mas é preciso ter respeito. Não vou desqualificar a oposição, mas gostaria que os que são discordantes não fossem tratados como obtusos ou fossem vítimas de insinuações. Vamos ter respeito pelas pessoas.” Marco, então, pediu desculpas. “Se o vereador Corrêa Neves se sentiu ofendido, peço desculpa.”
Recomeço
A discussão parecia ter se encerrado, mas o vereador Adérmis Marini (PSDB) reacendeu o debate ao elogiar a postura do vereador Marco Garcia (PPS). “A Câmara tem mesmo o dever de fiscalizar. O Marco, com a coragem que tem, vem aqui e coloca sua posição. Agora, de forma nenhuma, a situação pode dizer que a gente está errado. Marco Garcia tocou na ferida e incomodou algumas pessoas que mudam de postura.”
Novo ataque
Adérmis disse que não foi na reunião porque já tinha participado da audiência de prestação de contas realizada na última quinta-feira, na Câmara. “Não vou lá bater palmas para o prefeito.” Ele elogiou o ex-prefeito Sidnei Rocha (PSDB). “Ele fez a lição de casa e não ficou se lamentando sobre o passado.”
Corrêa pediu a palavra. “O senhor faz uma ilação a mim... O senhor desqualificou os demais vereadores que foram à reunião ao dizer que não foi ‘bater palmas’. Além disso, se esqueceu que o Sidnei (...), a quem admiro por muitas ações, sempre afirmou que herdou uma herança maldita”, lembrou. “O Sidnei passou oito anos lembrando da dívida do PT, mas o Gilson não pode falar (sobre os problemas recebidos dos governos anteriores). O Gilson tem que ficar quieto?”, questionou.
Della Motta (Podemos) também não gostou das ponderações de Marco Garcia e Adérmis Marini. Disse que esteve na reunião exatamente porque precisava fiscalizar. “Estou preocupado com a cidade. Não fui lá bater palma a ninguém. Não é porque fui à reunião que estou apoiando um lado. Eu tenho o meu lado, que é o interesse público da cidade.”
Tony Hill (PSDB) foi outro que rechaçou as considerações dos dois oposicionistas. Afirmou que esteve no gabinete, mas não para bater palmas. “Fui lá saber do andamento da cidade, ouvir o que o prefeito tinha que falar, ver os números das finanças. Não fui apoiar ninguém. Mas estou do lado do prefeito se ele estiver a favor da cidade. E é preciso ter cuidado com as palavras. É melhor ficar quieto do que dar bom dia a cavalo.”
Para Tony, a reunião foi importante. “Esclareceu várias dúvidas e deixou clara a posição do governo. Agora queria pedir que vereador que não puder ajudar, pelo menos, que não atrapalhe. Não fique gravando vídeo no Facebook falando que o prefeito vai criar uma taxa que ele não vai. Para os dois terem certeza, tanto você, Adérmis, quanto você, Marco Garcia, deviam estar no gabinete para poder criticar com propriedade.”
Desculpas
Ao final, Adérmis também se desculpou. “Peço desculpas aos colegas por ter dito sobre bater palmas.” Acabou elogiando Gilson. “Ele agiu corretamente ao não mandar para essa casa o projeto da taxa de iluminação.”
Marco pediu a palavra para dizer que abria mão da sua parte no orçamento impositivo para “ajudar” o governo a pagar os servidores. Defendeu ainda a redução de 50% do salário dos vereadores. “Entendo a situação difícil da Prefeitura... Não quero ver a cidade igual à época do PT.”
O líder do governo, Pastor Otávio (PTB), reforçou a posição do governo de descartar a taxa de iluminação. “A secretária de Finanças (...) defende a taxa, mas não cabe a ela o envio de projeto. O prefeito já afirmou que não vai fazer isso, que é contra a taxa e não irá mandar projeto nenhum.”
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