Passar um ofício de pai para filho é orgulho e desgraça de muitas famílias. Algo difuso entre o direito e o dever, conforma os corações tranquilos, mas, para os sanguíneos, sem possibilidade de meios termos, haverá ruptura. Em todo caso, caberá ao filho a decisão de amalgamar-se aos conhecimentos dos pais – mera escolha de vida porque o lamento por um conhecimento que se encerra ombreia com a lástima pela personalidade cerceada. Das guildas da Idade Média, onde era impensável dispensar o saber e a proteção familiar, para os dias de hoje foram tantas as mudanças que nem parece o mesmo mundo. Por essa razão é extraordinário encontrar uma filha de cigano que mantém e propaga a sabedoria do pai.
A casa aberta, o conforto diante de pessoas ou animais, conhecidos ou não, é herança da vida comunitária levada na infância. Camas de forquilhas, chão de terra, colchões de palhas de coqueiros a fizeram pensar simples e fácil. Os 15 filhos criados não chegaram a lhe branquear os cabelos. Lembra-se que, do nascer do sol ao cair da tarde, acompanhava o pai mato a dentro para, sob a urgência de alguma doença ou apenas na provisão dos remédios mais utilizados, buscarem as ervas e raízes milagrosas. Até hoje, dona Nilza visita matos familiares em busca das ervas de que ainda se lembra. Ela mesma lamenta ter se esquecido de algumas. Mas é viva a emoção do dia em que o pai lhe incumbira de seguir adiante com o dom dele.
O pai de dona Nilza era cigano e raizeiro, detinha o saber dos emplastos, xaropes, rezas e simpatias que aliviavam as dores. A folha da assa peixe, uma das mais utilizadas, atendia de um simples resfriado a pneumonia e até na desinfecção de picada de cobra. O óleo da semente da sucupira pilada, para dores reumáticas, artrites e artroses. O suco purificador no desjejum: talo de couve, beterraba, água de coco e cenoura. O sumo do tomate verde aquecido para cicatrizar feridas renitentes, o emplastro do mastruz, contra qualquer dor. O lombrigueiro anual: 12 horas bebendo apenas água de coco após o chá feito de mastruz, açúcar mascavo e semente de abóbora. A semente da amburana, (fino aromatizante de doces, comercializada pela Bombaim) era remédio para reumatismo e bronquite.
Dona Nilza não é chamada para tratar picadas de cobra, como frequentemente seu pai era. Tampouco seria a única possibilidade de cura em lugarejos que não conhecem a medicina. Mas suas garrafadas e emplastros gozam de confiabilidade. Pouco importa quanto custa ir ao mato, recolher espécies vegetais, produzir infusões, macerações, vapores: tudo será gratuito - cobrar pela ajuda prestada seria desonra. Pior ainda, se arvorar curandeira. A lição primeira de seu pai foi que só Deus cura, o raizeiro é o instrumento que reconhece na natureza a existência de Deus, e o chama por “flores, árvores, montes e sol e o luar”.
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