Parecia impossível que, depois de tanta neve, o dia seguinte fosse de sol. Tampouco a noite gelada sugeria que dali a pouco desfrutaríamos de algo quente como um sol. Ainda assim, decidimos que o amanhã seria vivido do lado de fora porque, segundo a previsão metereológica, teríamos céu azul, sem neve ou chuva. Antes mesmo que o celular despertasse, eu já vira que estava tudo lá, à risca da previsão – então, partimos rumo ao Marais, o bairro judeu de Paris.
Nosso principal interesse, nesse antigo bairro, era justamente a comida. São famosos os falaféis vendidos nas ruas, feitos tradicionalmente por famílias judias. Mas logo percebemos que o falafel fora o bom pretexto para imergirmos num ensolarado sábado jovem.
São muitas as casas que vendem lanche com falafel e a regra parece ser a seguinte: só se senta no interior do restaurante quem pedir um prato, quem vai comer só lanche tem de retirá-lo por uma boqueta que dá para a rua. Paga-se algo em torno de 7 euros e mata-se a fome generosamente.Esse lanche é vegetariano, em alguns casos vegano, vai depender do molho colocado, mas nada tem a ver com a moda.
Originário do Oriente Médio, o falafel é um bolinho frito feito de grão de bico ou favas moídas. Julgo que a mistura vegetal que dará origem a esses bolinhos é segredo de família. Muito embora haja uma base, os temperos devem variar. Exceção feita ao cominho! Esse, em pó e semente, está absolutamente presente em qualquer deles, e em quantidade que um paladar desacostumado pode estranhar.
Mas o lanche com falafel é mais que isso. O rapaz que estava montando o nosso, na cantina Marianne, um imigrante - seria mesmo palestino?- não estava autorizado a fazer nada mais que simplesmente abrir um pão pita e enchê-lo com cenoura e beterraba raladas, pepino em quadrados, repolho, alface, tomate e rodelas fritas de berinjela e três bolinhos de falafel por cima e molho de iogurte. Um garfinho nos ajuda a não despencar tudo na primeira mordida.
O movimento é intenso, filas se formavam em todas as casas, o público é jovem e não turístico essencialmente. Na boqueta, onde retiramos os lanches, duas vasilhas dispostas com picles e molho de pimenta ficam à disposição dos clientes, que podem temperar o lanche à medida que se come. Razão pela qual ficamos todos por perto...
Nos acomodamos num hidrante, atravessado por um feixe do sol prometido. Vários jovens ocupavam as calçadas, as escadarias de uma sinagoga. Os pombos esperavam pelos farelos de pão e de hortaliças, que nossa diligência não conseguiam evitar. Um sentimento de paz nos irmanava justo no bairro que, na atual situação do mundo, poderia inspirar algum cuidado. Mas, com mãos e bocas ocupadas, ninguém parecia se lembrar disso.
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