Tornar-se dependente, seja física, mental ou financeiramente. Esse é o maior temor dos brasileiros quando trata-se do envelhecimento, segundo uma pesquisa divulgada recentemente pelo Instituto Datafolha. O medo de depender dos outros supera o pavor da morte ou do próprio envelhecimento. O levantamento, realizado em todas as regiões do país, ouviu mais de duas mil pessoas e tem margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
O resultado da pesquisa se reflete entre muitos francanos que relatam que a dependência seria o pior cenário que enxergam para a velhice. Com cerca de um mil atendidos nos CCIs (Centros de Convivência dos Idosos) “Nelson Paula Silveira”; “Rodolfo Ribeiro Vilas Boas”; “Lions Clube Franca Sobral”; “Avelina Maria de Jesus”, “Alegria de Viver” e Vosf (Voluntárias Sociais de Franca), Franca oferece atividades físicas, culturais e sociais para ajudar no processo de envelhecimento saudável da população. Foi nesse ambiente que a reportagem do Comércio conversou com alguns deles em busca das expectativas e temores com os quais os que estão envelhecendo lidam nesta etapa da vida.
“Posso dizer com toda a convicção que hoje minha saúde é melhor do que há 20 anos. Pratico diversos exercícios físicos e também faço atividades que me ajudam a manter a minha mente saudável. Estamos em um período em que sabemos que a expectativa de vida é maior, por isso nos preparamos mais para esses anos e não queremos ser dependentes de ninguém”, disse Agostinho Franco da Rocha, 63, metalúrgico aposentado e integrante do Comupi (Conselho Municipal da Pessoa Idosa) de Franca.
“Tenho problema de coração e na coluna e comecei a frequentar o CCI por indicação médica há seis anos e hoje não me vejo mais sem. Minha mãe teve Alzheimer e precisou de cuidados. Acompanhei de perto como é complicado ser dependente e esse é, de fato, o meu maior medo, assim como de várias amigas que tenho aqui relatam”, disse a dona de casa aposentada Iracilda Queiroz, 70, que há 6 anos frequenta o CCI “Lions Clube Franca Sobral”, onde participa de aulas de bordado, pilates, yoga e ginástica.
Coordenadora do CCI Lions, o primeiro fundado na cidade no ano de 2009, Cláudia Cintra Marques afirma que atualmente cresceu a procura por participação nas atividades oferecidas pelo espaço. “Isso reflete a busca pela ocupação do tempo e pela qualidade de vida. A grande maioria ainda são mulheres, mas hoje é mais comum que antes a presença de homens. Percebemos que existe muito receio da velhice dependente. O idoso não quer ser cuidado, mas se cuidar”, explica.
Estatísticas
“As estatísticas mostram que os francanos, assim como os brasileiros, estão vivendo mais e isso, naturalmente, traz uma preocupação extra para todos que, além de terem mais anos de vida, os vivam com qualidade”, disse a psicóloga do Ambulatório de Geriatria de Franca, Paula Antolin Morikoshi. “E, para isso, é preciso investir mais em qualidade física, mental e também nos meios sociais. Hoje as pessoas estão mais voltadas para garantir no seu dia a dia independência e autonomia da família. Além das perdas naturais no processo de envelhecimento, como as físicas e financeiras, eles buscam estimular potencialidades para não apenas viver mais, mas viver melhor”, completou.
A pesquisa mostra que dos entrevistados, 84% têm medo de depender fisicamente de alguém, 83% temem a dependência mental e 78%, a financeira. No caso das mulheres o medo é maior que dos homens: 87% a 81%, 86% a 79% e 81% a 75%, respectivamente.
ATIVIDADE FÍSICA É O PRINCIPAL CAMINHO
Segundo a geriatra Patrícia Bombicino Damian, que atende pelo Hospital e Maternidade Regional, o segredo para uma velhice saudável e sem dependência é se manter ativo. Para ela, que é preceptora na área no Uni-Facef e na Unifran, a atividade física é fundamental na busca por um envelhecimento com mais qualidade.
“Antes as pessoas viviam entre 60 e 65 anos, por isso não era comum essa preocupação com o envelhecimento, os brasileiros não sabiam o que era envelhecer e mudar essa mentalidade é difícil. Há uma perda de capacidades em todas as faixas etárias, isso é natural, mas existem formas de tornar esse processo menos brusco e doloroso. Agora, com expectativas girando entre 80 e 90 anos, com certeza a tendência é essa procura por um envelhecer melhor”, disse.
“E, quando falamos dessa busca, a atividade física representa mais de 90% dessa qualidade, pois é ela que pode ajudar no controle de doenças”, completou.
‘Não adianta viver muito, se não for para viver bem’
Proprietária de um Centro de Reabilitação e Referência em Terapia Ocupacional há 31 anos, a terapeuta ocupacional Maria Clara Rodriguez da Silveira, especialista em geriatria, trabalha com as potencialidades humanas e busca, em sua atividade, melhorar a vida de cada pessoa dentro daquilo que ela possui. “Quando falamos em trabalhar com adultos e idosos buscamos sempre priorizar o que a Organização Mundial da Saúde prevê agora que é o envelhecimento ativo”, disse.
Na clínica, foram criados grupos de estimulação cognitiva para adultos saudáveis para que eles possam ter um envelhecimento com menos limitação, uma rotina mais saudável, ativa e feliz. “Começamos a atender com adultos saudáveis, falando neste aspecto da busca de envelhecimento saudável, mas tratamos também quem possui limitações para garantir que eles sejam o mais independente possível”, disse. “Não é por que a pessoa se aposentou que precisa estar em casa, sem fazer nada, ainda é possível aproveitar a vida. Trabalhamos aspectos também da mente, com cultura, passeios, apresentando o mundo de uma forma geral para essas pessoas”, completou.
Segundo Maria Clara, nos últimos anos cresceu a procura pelo serviço prestado no Centro, já que atualmente a população em geral se preocupa mais com o envelhecimento saudável e sem dependência. “O idoso vive mais hoje, mas o que ele ganha em anos ele muitas vezes perde em qualidade. Não adianta viver muito, se não for pra viver bem. O objetivo da terapia ocupacional é exatamente trabalhar e qualificar as atividades da rotina desse idoso. O Brasil era um país jovem e agora não é mais. Se esse envelhecimento não for tratado adequadamente, pode se transformar em um problema de saúde pública”, finalizou.
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