Inácio Araújo
FolhaPress
À primeira vista, "Trama Fantasma" parece um bem urdido "remake" do "Rebecca" de Hitchcock. Aqui também tudo começa por um homem atraente, sólido e solitário -no caso, o costureiro Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), que pontifica na Londres do pós-Guerra.
Esse homem tem uma sombra: a irmã Cyrill, seu braço direito no comando da casa de modas. Não só isso: Cyrill parece mesmo administrar a vida pessoal do irmão. Existe também a sombra de uma "mulher inesquecível" em seu passado, no caso a mãe.
A última peça da trama surge na pessoa de Alma (Vicky Krieps), a bela garota que Woodcock encontra trabalhando numa estalagem. Eles se atraem profundamente, nota-se. Woodcock traz Alma para o seu ateliê.
As semelhanças não param por aí, pois desde logo se faz notar a hostilidade de Cyrill em relação a Alma.
Cyrill tem um misto de desprezo e ciúme pelas mulheres que se aproximam do irmão (assim como a Mrs. Danvers de "Rebecca"). Pode-se ficar por aí nesse capítulo, pois Paul Thomas Anderson constrói sua trama de maneira bem mais suave que Hitchcock: estamos em um grande ateliê de costura dirigido por um homem de gênio, não no soturno castelo do Maxim de "Rebecca".
VAMPIROS
É verdade que Reynolds dirige seu negócio com mão de ferro e não admite menos que a perfeição como resultado de seu trabalho. Tudo isso, porém, é superfície, pois Woodcock tem uma semelhança física impressionante com Nosferatu, o primeiro vampiro do cinema e padrão de todos os vampiros posteriores, o que abre uma nova aba neste filme.
Woodcock também é, com efeito, um ser vampiresco: ele como que suga a alma das garotas que traz para viverem com ele no ateliê e, depois de esvaziá-las, as descarta.
Embora pensemos que a vilã da história seja Cyrill, o vilão talvez seja mesmo Woodcock. Ou talvez não. Pois não é por acaso que alguém se chama Alma. Apesar da delicadeza, ela reivindicará Woodcock para si com energia e métodos nem sempre gentis, como colocar um pouco de cogumelos venenosos em sua comida, o suficiente para tê-lo frágil e doente (ela usa o pouco ortodoxo estratagema como forma de afastá-lo das pessoas que o cercam todo o tempo).
Seria Alma então a vilã?
ALMA
Veremos que o caso é um pouco mais complexo e que talvez esteja aí o cerne da trama que tece esse costureiro ao longo deste melodrama. Woodcock é um homem de fama e fortuna, mas o que busca é sua alma. Ao mesmo tempo, Paul Thomas Anderson trabalha com apuro para engrossar o suspense do filme: a atmosfera torna-se mais pesada à medida que o filme evolui.
O diretor demonstra suas habilidades: é dos raros a usar de maneira conveniente o "travelling" por trás da personagem, por exemplo.
Com isso, contorna o que poderia ser um obstáculo a qualquer premiação: "Trama Fantasma" é, antes de tudo, uma trama francamente fora do espírito de correção política contemporâneo. Mais ainda se levarmos em conta o caráter radical das recentes manifestações feministas.
Pois, afinal de contas, "Trama Fantasma" nos coloca diante de uma mulher capaz de usar os meios mais clássicos para conquistar (e conduzir) um homem: a sedução, a beleza, a gentileza submissa, a fragilidade, mas também a intuição, a astúcia e até mesmo a traição -o caminho de Woodcock para encontrar sua suave Alma não terá nada de fácil.
Filme de certo modo arriscado, "Trama Fantasma" é provavelmente, com exceção de "Corra!", o longa mais interessante de um Oscar que está longe da indignidade de anos recentes.
PRESTÍGIO
E, no entanto, algo soa estranho neste filme, como em quase toda a obra de Anderson: tudo está perfeitamente no lugar. O elenco, o cenário, os figurinos, o ritmo, tudo -até mesmo o risco.
Nada destoa; parece preparado com exatidão para ser um filme incontestável, um filme de prestígio. Ele é ao mesmo tempo competente, aplicado e inteligente. Sabe colocar em relevo o ator excepcional que tem nas mãos sem por isso apagar quem está à sua volta. Etc.No entanto, se nos distanciamos um pouco, é quase obrigatório pensar: esse filme tem mesmo uma alma?
Ou, em outras palavras, será que sua posteridade não será parecida com a da obra de um William Wyler, o cineasta mais aclamado da era clássica, mas de cujos filmes hoje em dia mal nos lembramos? Talvez seja uma questão menor -porém que é incômoda, isso é.
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