Em outros carnavais, não muito distantes, quando eles desfilavam cantando pelas ruas de Franca, muitas pessoas fechavam as janelas de casa. Outros, achavam que eram loucos. O número de seguidores era pequeno. Se resumia a meia dúzia de pessoas mais algum bêbado e o cachorro.
Dez anos se passaram. Em vez de fecharam as janelas, moradores resolveram sair de suas casas e se juntarem aos “loucos”. O pequeno grupo se transformou no Bloco Cangoma. No Carnaval 2018, arrastou uma multidão na área central de Franca. Foram dois cortejos, cada um com pelo menos sete mil foliões. Os grandes responsáveis por esse sucesso são o músico Pedro Fonseca e a professora e musicista, Priscila De Col. Em 2006, o casal fundou o Centro Cultural Cangoma, um local de pesquisa, prática e divulgação da cultura popular brasileira. O espaço desenvolve várias atividades, como cursos de música e dança, percussão e capoeira. O Bloco Cangoma, que promove um Carnaval diferenciado e tem atraído cada vez mais foliões, é o projeto mais conhecido.
Na quinta-feira, dois dias após reunirem milhares de pessoas no Centro para encerrarem o Carnaval de Franca, Pedro e Priscila receberam o Comércio para falarem que tiro, ou melhor, que bloco foi esse.
Qual a origem do nome Cangoma?
Pedro - O nome veio de um canto registrado pela Clementina de Jesus e que se chama Cangoma. É um canto escravo de exaltação à liberdade. Ele fala: “eu estava dormindo, o Cangoma me chamou, disse ‘levanta povo, o cativeiro já acabou’”. Sempre gostamos muito desta música e decidimos batizar o nosso espaço com o nome, pois iríamos trabalhar com a pesquisa de cultura popular, que tem sua base nos tambores. Acreditamos na força de transformação da arte.
Quando o Cangoma surgiu em Franca?
Pedro - Saímos pela primeira vez como bloco em 2014, mas a nossa história começa bem antes. Em 2006, abrimos o espaço onde fica o nosso Centro Cultural. No ano seguinte, criamos o grupo Cangoma, que era bem menor. A gente era, no máximo, em 15 pessoas. Em todos os Carnavais, o grupo saia, mas eram apenas os músicos. Em 2014, surgiu a ideia de montar o conceito de bloco e abrir para outras pessoas. De uma hora para outra, a coisa passou a ganhar corpo e atingiu uma dimensão enorme.
Vocês esperavam que o bloco um dia iria arrastar mais de sete mil foliões, como aconteceu este ano?
Priscila - Não. Se mantivesse o número de 2014, quando reunimos cerca de 500 pessoas, a gente já estaria feliz. Em 2007, era o Cangoma, o bêbado e o cachorro. Em 2008, era o bêbado, o cachorro e mais umas três pessoas.
Pedro - No começo, foi muito difícil. Quando o Cangoma passava, muita gente fechava a janela e olhava feito. Foi bem complicado.
O que poucos sabem é que o Cangoma é muito mais do que só o Carnaval...
Priscila - O Bloco Cangoma é uma atividade que acontece no Centro Cultural. O Carnaval é apenas uma etapa de muitas outras coisas que a gente faz ao longo do ano. O Centro é sede de três grupos de pesquisa, prática e divulgação da cultura popular. Um é o Grupo Cangoma, que existe há 11 anos, e que estuda várias manifestações de cultura popular e que se apresenta em atividades culturais, museus e escolas. Também temos o grupo Balaio, que tem cinco integrantes e é apenas musical. O Cangoma é de música e dança. Com o Balaio, já nos apresentamos em, praticamente, todos os SESCs do Estado, em viradas culturais, festivais e no programa do Rolando Boldrin. A outra frente é o bloco, que surgiu há cinco anos. O bloco está voltado mais para as manifestações características e tradicionais do Carnaval. Já a abrangência dos outros grupos é geral.
Pedro - Quando acaba o Carnaval, o bloco não para. A turma queria continuar frequentando. Há dois anos que é assim, o trabalho não para. Um mês após o Carnaval, a gente retoma os ensaios. É um trabalho contínuo.
Quantos componentes há no bloco?
Pedro - Se contar com as crianças, passa de cem. Temos um outro projeto que se chama “Pequenos Batuqueiros”, que são aulas para crianças. Temos em torno de 40 alunos, que também saem no bloco. Muitas crianças que começaram neste projeto já cresceram, estão com 13, 14 anos e já estão no bloco de adultos.
Priscila - Além dos grupos de pesquisa, aqui no centro cultural, tem o curso de música e dança da cultura popular brasileira, realizado há 11 anos. Já formamos dez turmas. É um curso prático e teórico aberto para qualquer pessoa. Somos muito procurados por professores, músicos e estudantes. Fora isso, tem capoeira e os Pequenos Batuqueiros. Sempre estamos trazendo oficinas.
O que é preciso fazer para participar das aulas oferecidas pelo Cangoma?
Priscila - No começo do ano, a gente faz a divulgação e monta as turmas. Em breve, abriremos as inscrições. As aulas de capoeira são contínuas e acontecem ao longo do ano. As oficinas são mais curtas. Às vezes, dura um dia inteiro ou dois finais de semana. Já fizemos oficinas trazendo os mestres de Maracatu, de Recife.
Pedro - As oficinas são abertas para todos. Já é o quarto ano que trazemos os mestres para passar os seus conhecimentos. São estas atividades que mantêm o nosso espaço. Somos totalmente independentes e não recebemos verba públicas. Os integrantes do bloco contribuem com mensalidade. Com este dinheiro, fazemos o caixa que financia o nosso Carnaval. As despesas são altas.
Priscila - O caixa de cada atividade mantêm aquela atividade. Ainda não conseguimos ter fins lucrativos. O espaço se sustenta, caminha sozinho.
A explosão do movimento de blocos, verificada no Rio de Janeiro, São Paulo e até mesmo em Ribeirão Preto, também será uma tendência em Franca nos próximos Carnavais?
Pedro - Acredito que sim. É uma coisa que vem crescendo muito. Este ano, foi quando mais gente acompanhou o bloco. Havia pelo menos sete mil pessoas em cada cortejo. Na terça-feira ficamos inseguros, pois no dia anterior choveu e muitas pessoas foram embora. Temia que não fosse aparecer ninguém. Na verdade, fomos surpreendidos, pois havia ainda mais gente.
É possível descrever a emoção que sentiram ao ver tanta gente acompanhando o bloco?
Pedro - Foi muito emocionante estar o palco e ver a praça lotada. É um momento em que lembramos de tudo o que aconteceu, de como era no começo, quando saíamos sozinhos na rua e as pessoas achavam que éramos doidos. O que é mais emocionante é ver pessoas de todas as idades. Não temos um público específico, não tem classe social ou faixa etária. Somos um bloco democrático.
Vocês têm ideia de onde o Cangoma vai parar?
Pedro - Este ano, me deu um pouco medo. Na saída, não era comum juntar tanta gente. Quando cheguei e vi aquela multidão, me deu um frio na barriga. Foi quando eu pensei: “a coisa virou a chave”. Temos os pés no chão e sabemos da necessidade de manter o trabalho. O nosso princípio é nunca fugir da essência, independentemente, do tamanho do público. Nossos fundamentos são a valorização da cultura popular, mostrar os ritmos tradicionais, trazer nossa herança e identidade como brasileiro.
Priscila - Outra missão é tentar resgatar o Carnaval tradicional, tanto de rua, quanto de salão. A participação popular mostra que estamos conseguindo.
Já estão planejando algo diferente para o próximo Carnaval?
Priscila - Não pensamos em quantidade, em ser maior. Pensamos sempre em ser melhor em relação a tudo, infraestrutura, segurança e qualidade. Sempre fazemos uma balanço, anotamos tudo o que deu certo e o que deu errado. Vamos aprendendo com os erros e buscamos aprimorar. Manteremos sempre a nossa essência e nunca iremos fazer parcerias que possam comprometer nosso trabalho.
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