Guilherme Campos Júnior, 55, é natural de Campinas, onde se dedicou à atividade comercial até ingressar na vida pública em 2005. Graduado em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP, foi deputado federal por dois mandatos, líder do PSD na Câmara, vice-prefeito de Campinas e secretário municipal de Comércio, Indústria, Serviços e Turismo. Foi presidente da Associação Comercial e Industrial da cidade por quatro mandatos e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas.
Desde junho de 2016, é o presidente nacional dos Correios, empresa que tem mais de 100 mil funcionários espalhados pelo País. Guilherme Campos veio a Franca na semana passada acompanhar o lançamento do programa Internet para Todos. Ele falou ao Comércio sobre os constantes atrasos na entrega de correspondências e avaliou o futuro da empresa diante da concorrência feita pela internet.
Os Correios sempre foram sinônimo de eficiência, mas as reclamações por atrasos na entrega de correspondências e encomendas são cada vez maiores. O que está acontecendo com a empresa?
É um prazer e um privilégio poder colocar em público os problemas que aconteceram, especificamente, no mês de janeiro por todo o interior de São Paulo. Tivemos um problema localizado na Central de Distribuição dos Correios, que fica em Indaiatuba, na região de Campinas, onde tem um equipamento que faz toda a triagem de correspondências e encomendas. Este problema já foi resolvido e a normalidade nas entregas está acontecendo em todas as cidades. Infelizmente, em Franca o problema foi sentido com mais intensidade porque a cidade é um dos locais em que a distribuição está melhor resolvida e, quando há um problema, as pessoas que estão acostumadas com um padrão de atendimento passam a reclamar e com razão. Mas, a situação está resolvida e o problema deixa de existir. A distribuição volta a se normalizar por estes dias
O número de funcionários dos Correios é suficiente para atender à demanda de serviços? O quadro reduzido não prejudica as entregas?
O que existe, hoje, é uma mudança do perfil de trabalho dos Correios. A atividade postal vem caindo no mundo todo e no Brasil não é diferente. O que é a atividade postal? É a carta. Há quanto tempo as pessoas não mandam uma carta para alguém,um cartão postal? Essa comunicação entre pessoas deixou de existir. A atividade postal está, basicamente, em cima de faturas, boletos e notificações judiciais. O número deste tipo de correspondência vem caindo de uma maneira muito expressiva nos últimos anos. Só no ano passado, a queda do volume de mensagens em relação a 2016 foi de 12,5%. Com esta queda, a distribuição tem que ser redimensionada e a necessidade de pessoas que existia no passado, para o número de objetos postais, principalmente, as mensagens, não é mais necessário. É uma reorganização de toda a força de trabalho e do negócio Correio.
A reorganização está afetando a distribuição?
Todo o projeto de readequação dos Correios foi implementado em junho 2017. Foi quando demos um enxugamento na empresa, um enxugamento nos níveis administrativos da empresa. Foram eliminados mais de 400 postos de gerência no Brasil inteiro. Enxugamos as posições administrativas para deixar todo mundo na atividade fim da empresa, para deixar a pessoa na rua para entregar os nossos produtos postais que, no passado, tinham uma relevância muito maior e, agora, na atualidade, é o e-commerce, o mundo das encomendas, que se abrem para os Correios.
O senhor citou a queda no volume de correspondências verificada no ano passado. Qual é o impacto da internet nas correspondências tradicionais?
É um novo mundo que se abre. Essa queda na atividade postal é notada no mundo inteiro. Há 10, 15 anos, os principais Correios do mundo já iniciaram essa transformação dentro de suas empresas. O Correio do Brasil demorou mais para encarar essa nova realidade. A necessidade de se transformar está, absolutamente, às vistas, tanto é que os grandes prejuízos que os Correios vêem sofrendo nos últimos anos são reflexo dessa mudança de atividade da empresa e das necessidades de adaptação a esse novo mundo que se abre. Se por um lado está acabando o monopólio da atividade postal, está abrindo a oportunidade de um grande negócio, que é o negócio da encomenda, do e-commerce. Os Correios têm o privilégio de ter um produto que é sinônimo de serviços, que é o Sedex, têm a confiança dos brasileiros e estão em pleno processo de transformação da empresa.
As pessoas ainda mandam cartas, enviam telegrama?
Há quanto tempo você não manda uma carta para alguém? Acredito que há muitos anos. Carta e telegrama passaram a ser uma atividade que faz parte do passado. Pergunte aos jovens de hoje o que é uma carta, um telegrama. Eles vão dizer: onde está este aplicativo no meu celular? Os Correios estão se adequando à esta nova realidade. Estão lançando o Correio Celular, que é o serviço de telefonia através dos Correios, e que funciona muito bem, é um grande sucesso. Foi lançado no dia 31 de março de 2017 e já vendeu 100 mil chips pelo Brasil. É uma corrida contra o tempo que os Correios têm que fazer.
Uma corrida contra o tempo para não ser engolido pela internet?
Estamos vivendo toda uma transformação em todos os setores em cima de uma tecnologia, de um novo jeito das pessoas se comunicarem, como é o caso dos Correios. Os Correios existem há 355 anos, foi a primeira empresa de comunicação do País com a tecnologia disponível à época, papel e tinta, com uma sofisticada rede de logística para entregar as correspondências. A empresa foi a segunda empresa postal do mundo a adotar o selo, só ficou atrás da Inglaterra. Há uma série de assuntos de vanguarda que os Correios participaram, mas, neste momento, perdeu o timing da história, perdeu o momento de fazer essa readequação para poder sobreviver dentro deste novo mundo, onde o tráfego postal cai, e cai cada vez mais rapidamente, e há a necessidade da empresa se adequar. Hoje, o tamanho das despesas dos Correios não cabe dentro da atividade postal. A empresa tem que buscar outras atividades para se manter viável.
O senhor acredita que os Correios possam acabar um dia?
Os Correios não acabarão. O que pode acabar, não digo que acabe, mas que diminuirá muito é a atividade postal, a atividade do monopólio. Os Correios estão se reestruturando para ter mais 355 anos de vida, fazendo aquilo que ele faz muito bem: a atividade de logística, a atividade de entrega de encomendas, atividade de presença nacional. É a sua capilaridade. Hoje, são mais de 106 mil funcionários espalhados em todos os municípios do País, 6,5 mil agências próprias, 4,5 mil agências comunitárias e mil franqueadas. Só em dezembro do ano passado, a empresa transportou mais de 27 milhões de encomendas.
Os Correios não vão acabar, mas sua atuação como presidente da empresa chegará ao fim nos próximos dias. A informação de que se afastará para disputar as eleições para deputado federal se confirma?
Sim. Desde o início da oportunidade de assumir a presidência, foi colocada uma data de validade. E a data de validade é o prazo de desincompatibilização (abril) para poder concorrer a deputado federal novamente. Vou cumprir aquilo que havia sido acertado no início, que é fazer a gestão necessária, promovendo a grande transformação da empresa, promovendo esta grande virada, deixando um legado com pessoas que dêem continuidade a este trabalho que vem sendo realizado com muita dedicação e com muito empenho por todos os funcionários dos Correios, que são o grande patrimônio da empresa.
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