Relatos de que crianças brasileiras estavam sendo colocadas em classes especiais para alunos autistas nas escolas japonesas, pela razão de não conseguirem se comunicar, deixaram o quadrinista Mauricio de Sousa, 82, impressionado por anos.
Isso - e a intenção de abrir uma empresa para editar revistas e fazer merchandising no Japão em 2018- motivou-o criar um gibi que ajudasse as crianças brasileiras a se adaptarem às escolas de lá. A publicação foi bancada por ele mesmo, por meio do Instituto Mauricio de Sousa.
Em A Turma da Mônica e a Escola no Japão, vemos Mônica, Magali, Cascão e Cebolinha se preparando para um dia de aula.
Diz o Cebolinha:
“Chegando na escola, a primeira coisa a fazer é tilar os sapatos, (yay)! Daí, gualdamos na sapateila (getabako) e colocamos as sapatilhas (uwabaki)”.
A Mônica explica: “Aqui, depois do recreio, os alunos fazem o revezamento da limpeza da escola! Salas de aula, banheiros etc.” E a Magali complementa: “No Japão, nas escolas, não é permitido o uso de brincos! De nenhum tamanho! Na cultura japonesa não se fura a orelha das crianças, como é comum no Brasil! Fora da escola pode usar!”.
Distribuída gratuitamente desde outubro, a cartilha chamou a atenção de jornais japoneses e do Ministério da Educação daquele País , que estuda estender a experiência para outras línguas.
Os relatos das crianças brasileiras chamadas no Japão de “autistas” ( como tal consideradas porque não conseguiam aprender japonês e, assim, se comunicarem), surgiram há dez anos, quando mais de 300 mil brasileiros se tornaram decasséguis, trabalhando no Japão para guardar dinheiro ou enviar às famílias no Brasil.
O número caiu pela metade em 2015, mas no ano passado voltou a subir: 180 mil. “Segundo o Itamaraty e o consulado japonês, esperam-se novos 150 mil brasileiros nos próximos anos”, diz Mauricio.
“Acredito que voltaremos à marca de 300 mil nas Olimpíadas de Tóquio, em 2020. Há muita procura de mão de obra hoje, para reformas de estádios, reconstrução de estradas etc”, conta Ricardo Okino, representante do cartunista no país, que ajudou na pesquisa para a cartilha.
A ligação de Mauricio com o Japão vem de décadas. Ele é casado com a nissei Alice Takeda (diretora de artes de seu estúdio) desde 1975, com quem teve três filhos.
Visitou o país diversas vezes. Ficou amigo do lendário “Disney japonês” Osamu Tezuka (1928-1989), criador de A Princesa e o Cavaleiro -e responsável pelos olhos gigantes de todos aqueles animes e mangás-, teve o dinossauro Horácio publicado em jornais e hoje tem a Mônica em tiras conjuntas com as gatinhas da Hello Kitty.
Glossário
Dekasségui:
Esta palavra é formada pela união dos verbetes na língua japonesa (deru = sair) e (kasegu = para trabalhar), tendo como significado “aquele que trabalha distante de casa”. Ela designa qualquer pessoa que deixa sua terra natal para trabalhar temporariamente em outra região ou país. No fim dos anos 80 e início dos anos 90, a palavra começou a ser muito utilizada aqui no Brasil para denominar os brasileiros descendentes de japoneses que passaram a imigrar para o Japão à procura de melhores oportunidades de trabalho.
Issei, Nissei e Sansei
Estes são termos que se referem às gerações de imigrantes japoneses em outros países. A palavra issei define a primeira geração de japoneses que sai de seu país. Ou seja, é um issei o japonês que imigra para o Brasil ou para qualquer outro lugar. Quando um issei tem um filho, este é chamado de nissei, que significa a segunda geração de japoneses. Por sua vez, quando o nissei tem um filho, este é chamado de sansei – a terceira geração de imigrantes japoneses nascidos fora de seu país .
Animes e mangás
Basicamente, animes são os desenhos animados produzidos no Japão. Para os japoneses os animes são todos os desenhos animados, independente da sua origem, nacional ou estrangeira. Para o mundo ocidental os animes são apenas os desenhos animados do Japão. A principal característica dos animes são os olhos geralmente muito grandes e bem definidos. Podem variar entre redondos ou rasgados, mas sempre são feitos cheios de brilho e com o uso de cores chamativas, de modo a refletir a emoção dos personagens. Os mangás são histórias em quadrinhos, o correspondente aos nossos gibis.
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