Presidente omite que parlamentares já tramam pela manutenção de regalias
O presidente Michel Temer (MDB) deu início à sua ofensiva em defesa da reforma da Previdência, indo a programas de televisão. Com a estratégia, o Planalto também tenta dar visibilidade e conferir popularidade a Temer. No último fim de semana, o presidente da República esteve na estreia de Amaury Jr. na Band, no sábado, e no dia seguinte participou do Programa Silvio Santos, no SBT. Na tentativa de conseguir o apoio da população para um tema tão espinhoso, Temer falou sério, alertou para o perigo de o Brasil se transformar na Grécia ou Portugal e até brincou. No final do entrevista com Silvio Santos, deu ao apresentador uma nota de R$ 50, em alusão a distribuição de dinheiro que o programa do SBT promove entre seus participantes.
O governo espera votar a reforma, em primeiro turno, na Câmara, já em fevereiro. Constitucionalmente, as atividades do Congresso são retomadas em 2 de fevereiro, próxima sexta. Logo, foi adiada para a segunda, 5. Será uma semana de trabalhos parlamentares até a interrupção de mais uma semana para o Carnaval. O fato é que Brasília só despertará para 2018, mesmo, quando a Folia de Momo acabar. Aí já será dia 19 de fevereiro. Assim, o Palácio do Planalto terá menos de 10 dias para tentar avançar com as discussões e votação da reforma.
A Silvio Santos, Temer disse que, se nada mudar, o governo não terá dinheiro para pagar as aposentadorias. “Vai acontecer daqui a dois ou três anos o que aconteceu em Portugal e na Grécia, em que a dívida da Previdência é tão grande e expressiva que lá foi preciso cortar, 30%, 40% dos vencimentos dos funcionários públicos.” O rombo nas contas do INSS no ano passado chegou a R$ 182,4 bilhões - um crescimento de 21,8% sobre 2016. O problema fica ainda maior quando é somado o déficit com o sistema de previdência dos servidores públicos federais, com o rombo atingindo R$ 268,8 bilhões.
O governo Temer não tem os votos necessários para aprovar o projeto na Câmara. Grande parte dos deputados prefere não mexer no bolso da população em ano de eleições. Mas o relator do projeto, Arthur Maia (PPS-BA), já admite mudanças no texto original para conseguir o apoio de parlamentares. A intenção é poupar os servidores públicos - grupo que mais oposição faz ao projeto. Assim, o fim de privilégios e das altas aposentadorias, como prega a propaganda oficial, não passaria de balela. Pois as mudanças afetariam somente os aposentados pelo INSS.
Ao se aventurar por programas de TV, com roteiros previamente definidos, Temer vende aos brasileiros que a única saída para o caos é mexer no bolso de todos. Mas o presidente omite que parlamentares já tramam em Brasília pela manutenção das regalias dos aposentados da União. A reforma se faz necessária pela sobrevivência da combalida economia nacional. Mas não deve ser feita somente às custas da penalização dos já tão mal pagos aposentados do INSS. Como o próprio FMI (Fundo Monetário Internacional) defendeu em Davos, semana passada, a reforma não precisa ser rápida. Ela deve ser de qualidade.
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