'O que está acontecendo na S. Casa de Patrocínio é crime'


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José Mauro Barcellos, 60, é uma referência em Patrocínio Paulista. Há mais de três décadas, atua na cidade como médico. É especialista em cirurgia geral e em ginecologia e obstetrícia.
O mesmo sucesso obtido nos consultórios se repetiu nas urnas. Está cumprindo o terceiro mandato como prefeito, sempre com expressivas votações. Conseguiu a proeza de ganhar duas eleições pelo PT e a outra pelo arquirrival PSDB.
Se a Prefeitura é um ambiente familiar para ele, a Santa Casa de Patrocínio é sua segunda casa. Doutor Mauro passou 33 anos, mais da metade de sua vida, nos corredores do hospital. A estreita relação com a entidade foi rompida há um mês. Divergências com o provedor. O conflito vai parar na Justiça. Nesta entrevista, o prefeito e médico explica os motivos.
 
Qual balanço o senhor faz do primeiro ano do governo?
As circunstâncias foram muito adversas para todos os prefeitos no ano passado. Tivemos um País em crise, com a maior recessão da história, grande desemprego e arrecadação em queda. Estes fatores sobrecarregaram todas as prefeituras.
Aqui, em Patrocínio, adotamos uma política de racionamento de gastos e procuramos aplicar o dinheiro da melhor maneira possível. Pegamos uma Prefeitura com gasto de pessoal de 53% e, hoje, estamos com 47%. Tivemos superávit de R$ 1,5 milhão no primeiro ano de governo, graças à contenção de despesas. Priorizamos somente as obras mais importantes, como a construção das casas populares que estavam paradas.
No final do ano, tivemos uma dificuldade com a parte de Saúde por conta da não renovação do convênio entre a Prefeitura e a Santa Casa. Este foi o problema mais sério que tivemos no começo do mandato.
 
As medidas de contenção de gasto enfrentaram resistência?
A política é diálogo, temos sempre que conversar. Principalmente com os servidores públicos tivemos um diálogo aberto. Fizemos uma negociação boa para eles e para a Prefeitura. Demos um aumento real de salários e no valor do vale-alimentação, que foi para R$ 600, um dos maiores valores da região. Adotamos uma política séria e restritiva de gastos. 
Por outro lado, estamos trabalhando para aumentar a arrecadação. Estamos fazendo uma revisão dos valores do IPTU em locais onde, há vários anos, tem imóveis construídos, mas o imposto é cobrado apenas sobre o terreno.
Nos dois mandatos anteriores em que governou Patrocínio, o senhor era filiado ao PT. Depois, foi para o PSDB. Por que uma mudança tão drástica de partido?Tenho bons amigos no PT e em diversos partidos. Quando estava no PT, comecei a observar que havia alguma coisa errada, tanto em Patrocínio, quanto no Estado e no País. Por isto, fui me afastando.
Eu gostava do PT. Quando o partido começou a se organizar, ele veio das bases e eu acreditava que era o ideal, que daria um futuro melhor para os brasileiros. Mas, após entrar no poder, o PT começou a apresentar vários erros que eu não concordava. A política que o PT usou e radicalizou, eu não compartilho mais. Acho que o partido deveria ser cassado por causa da gravidade dos crimes cometidos.
 
O senhor defende que o Lula possa disputar as eleições para presidente?
Não defendo de jeito nenhum. Quem comete os erros que ele cometeu, tem que pagar. A divisão entre o bem e o mal não é o jeito de fazer política. Entendo que ele tem que ser enquadrado pela lei da Ficha Limpa. 
 
A Prefeitura e a Santa Casa de Patrocínio estão rompidas. Como é para o médico Mauro se afastar de uma entidade onde trabalhou por mais de três décadas?
A Santa Casa estava sendo bem administrada, mas, do ano passado para cá, houve uma gestão deficiente, que não prioriza a saúde. Em decorrência disto, os médicos começaram a se demitir. 
A Prefeitura fazia um convênio e repassava o dinheiro para a parte administrativa. A partir de julho, a provedoria começou a atrasar os salários dos médicos, o que provocou uma insatisfação muito grande. Perdemos dois pediatras, um cirurgião vascular e um oftalmologista. O serviço de endoscopia paralisou, tudo em decorrência de uma pessoa. 
Toda a diretoria da Santa Casa, Conselhos Fiscal e Administrativo pediram demissão. Só ficou o provedor. Ele administra toda a Santa Casa hoje e mandou, praticamente, todos os funcionários da contabilidade e administrativo embora. Está contratando outras pessoas com salários mais elevados.
Se a Santa Casa não sofrer uma intervenção ou não fizer uma eleição urgente, ela vai a falência. Ela não tem condições de ser tocada. É uma coisa muito séria o que está acontecendo. A Santa Casa existe para fazer filantropia e cuidar da saúde. Infelizmente, o serviço não está sendo feito da maneira correta, está sendo discriminatório. 
Por isto, estamos trabalhando para fazer uma nova eleição. É inadmissível que uma pessoa, que nem é da cidade, administre sozinha o hospital e tenha a caneta para contratar e pagar quem quiser.
 
Por qual motivo o convênio não foi renovado no final do ano passado?
A Prefeitura repassava, em média, R$ 170 mil para a Santa Casa. A gente dava o pronto-atendimento por 24 horas no hospital, medicamentos e retaguarda com os médicos à distância.
No final de agosto, como começou o problema da falta de transparência na Santa Casa, e os médicos pedindo demissão, passamos a cobrar a provedoria sobre o que estava acontecendo. A gente repassava o dinheiro, mas não estava havendo prestação de contas.
Levamos o problema para o Conselho Municipal de Saúde e para a Câmara Municipal, que são contra o provedor. A insatisfação entre os funcionários da Santa Casa é absurda. 
O senhor enxerga alguma saída para essa situação?
No próximo dia 30, vamos ter uma reunião com o Judiciário e Ministério Público para mostrar tudo o que está acontecendo. É o problema mais sério que já existiu em Patrocínio.
A Santa Casa foi feita para assistir ao povo de Patrocínio e da região, mas está fazendo justamente o contrário. Não há transparência. Tentamos firmar o convênio e convidamos o provedor para participara de reuniões na Câmara, mas ele recusou os convites. Ele se recusou a fazer o convênio falando que a proposta era irrisória. A gente repassava R$ 170 mil por mês e iria repassar, agora, R$ 142 mil, mas eles acharam pouco.
 Decidimos não renovar o acordo. Vamos oferecer o atendimento de especialidades e a Santa Casa será obrigada, como ela tem convênio com o SUS de urgência e emergência no pronto-atendimento, a atender toda a população de Patrocínio que chegar lá.
 
O senhor defende uma intervenção da Santa Casa?
Por enquanto, vamos tentar negociar e solicitar à Justiça que seja feita uma nova eleição. Temos pessoas competentes em Patrocínio que podem administrar e fazer a Santa Casa voltar a ser o que era. Nunca vi o hospital ser tão mal administrado como agora. 
A eleição tem que ser breve, pois a dívida está aumentando. Em último caso, vamos fazer a intervenção. Estamos pedindo ao Cremesp e à DRS que façam uma ação na Santa Casa. Todos os órgãos vão fiscalizar, pois a Santa Casa corre grande risco de perder sua filantropia. Se a gente não correr, se não houver ação atuante da sociedade e dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, a entidade pode fechar as portas.
O que está acontecendo dentro da Santa Casa é um crime. Está havendo improbidade administrativa, pois passamos recursos da Prefeitura que não estão sendo administrados corretamente. Esperamos que o problema seja resolvido o mais breve possível, pois a população não pode ficar sem a assistência médica em um município que tem uma das melhores Santas Casas da região.

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