Duas tragédias que poderiam ser evitadas


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Começo de uma noite de verão. Calçadão de Copacabana, a praia mais famosa do Brasil. Acaba de anoitecer. Banhistas e trabalhadores estão deixando a praia, após um dia de muito calor. Turistas e cariocas estão chegando ao calçadão para um passeio na noite quente. De repente, estouros, gritos, correria... Um carro em alta velocidade invade o calçadão e atropela dezenas de pedestres. Um bebê morre. Dezesseis pessoas ficam feridas. A notícia se espalha rapidamente pela internet. Chega aos meios de comunicação. A primeira suspeita: ataque terrorista. Minutos depois a confirmação: ataque epilético. A autoridade de trânsito do Estado do Rio habilitou um portador de epilepsia a dirigir e o resultado foi a tragédia da noite de quinta-feira.
 
A diferença entre as mortes no Rio e os ataques com carros, caminhões e vans em Nova York, Londres, Barcelona, Berlim, Nice e Estocolmo está na sua origem, apesar de – infelizmente – o resultado ser o mesmo: morte de inocentes. Lobos solitários ou pequenas células terroristas agiram nos Estados Unidos e na Europa. Por agirem sozinhos, é muito difícil serem descobertos, antes do atentado, pela vigília permanente que esses países mantêm contra o terrorismo. No caso do Brasil, para ter direito à Carteira Nacional de Habilitação (CNH), o cidadão precisa – além de provas práticas e teóricas sobre direção, entre outras coisas – de passar por um exame médico, que deve ser renovado em determinado período de acordo com a idade ou quadro de saúde do motorista. Essa vigilância permanente de nossas autoridades de trânsito, porém, mostrou-se ineficaz.
 
E não é só no caso de Copacabana, não. Minutos antes dos atropelamentos no Rio, uma tragédia ainda mais fatal acontecia em Brasília. Um casal de idosos, de 71 e 75 anos, morreu enquanto caminhava pela calçada. Um carro em alta velocidade atropelou marido e mulher, só parou ao bater em uma árvore. O velocímetro do veículo travou em 120 km/h; o limite na via é de 60 km/h. A suspeita é que a motorista tenha sofrido uma crise de hipoglicemia. Ela tem diabetes.
 
Os casos do Rio e de Brasília provam que há algo muito errado no sistema de habilitação e renovação de carteiras de motorista no Brasil. E mais: a fiscalização é ineficiente. O atropelador de Copacabana estava com a CNH suspensa. Mas dirigia normalmente desde 2014. Sobre a doença, o Detran diz que o motorista a omitiu.
 
Motoristas com epilepsia podem dirigir. Portadores de diabetes, também. No primeiro caso é feito um exame neurológico e a validade da carteira é menor, com renovações mais frequentes. E só podem conduzir carros. Especialistas afirmam que em ambos os casos, basta a medicação correta para evitar os ataques. Então, por que as tragédias? Porque simplesmente os exames médicos são ineficazes, se resumem – quase sempre – à aferição da pressão arterial e ao teste de visão. Se o candidato a motorista não é correto e não expõe ao médico seu real estado de saúde, o Estado nunca saberá a quem está dando o direito.
 

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