O julgamento de Lula e a polarização


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A proximidade do julgamento do recurso do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva da sentença que o condenou a nove anos e meio de prisão realimenta a polarização que divide o Brasil em dois desde os protestos de 2013. As redes sociais, terreno fértil para pseudointelectuais, disseminam – entre verdades e mentiras – o ódio de parte a parte.
 
Lula terá seu recurso julgado na próxima quarta-feira pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), em Porto Alegre. A sentença diz que o ex-presidente recebeu R$ 3,7 milhões em propinas, para a reforma do tríplex do Guarujá (SP), do grupo OAS, como parte de pagamentos pela contratação da empresa pela Petrobras. Os desmoralizados petistas, de um lado – jogados à lama por eles próprios –, e grupos de direita, de outro, prometem tomar a capital gaúcha.
 
Os debates inflamados, porém, já tomaram a mídia e, principalmente, as redes sociais. De tudo já se viu na internet. Surgiram ameaças de invasão de tribunais. Surgiram até ameaças de matar ou morrer por Lula. Programaram um “Carnalula”. Programaram show com a La Banda Loka Liberal (?)... A lista de ameaças e bizarrices é vasta. Mas o perigo mora em apenas um ponto: o que é verdade e o que é mentira, nessa era de fake news? As ameaças surgiram realmente de simpatizantes petistas? A de “matar ou morrer”, pelo menos, sabemos que saiu da boca da presidente do PT, Gleise Hoffman. Mas ela diz que foi “força de expressão”. 
 
E é na montagem de fotos, informações e até de fatos que caminhamos para dias que podem ser tenebrosos. Já surgem denúncias de infiltrados entre os defensores de Lula para patrocinarem badernas e culpá-los. Do outro lado, idem. Chegamos à temida situação do absurdo de que nem tudo o que vemos possa ser verdade. Tudo graças a uma polarização nunca vista no País, patrocinada por portadores de discursos inflamados e extremistas – às vezes, com teor discriminatório, de ódio – que ganharam espaço justamente no vazio deixado pelos políticos, mergulhados em escândalos de corrupção, totalmente desacreditados pela população.
 
O julgamento de Lula expõe os perigos da polarização e das fake news no início de um ano em que o Brasil terá oportunidade de varrer toda a sujeira de Brasília. O ano de eleições gerais começa com o grande ato político em que se transformou o ato jurídico. Até porque o julgamento pode ser determinante para o resultado das eleições presidenciais, com Lula sendo ou não candidato. 
 
Nesse cenário caótico de meias verdades e mentiras transformadas em verdades, o papel da imprensa ganha ainda mais importância no combate às fake news e na sua função primeira, que é de levar aos cidadãos a informação correta. À população cabe a desconfiança de tudo – exatamente tudo – que se propaga pelas redes sociais. Não podemos jogar no lixo, movidos pela desinformação, a oportunidade de jogar fora o nosso lixo político.
 

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