Na última sexta-feira, numa ação conjunta, Polícia Militar e Vigilância Sanitária lacraram as portas de uma clínica clandestina para tratamento de dependentes químicos. Ao vistoriar o local, as autoridades constataram diversas irregularidades, como falta de alvará, falta de equipe para cuidar dos pacientes e ausência de equipamentos de segurança. Eles perceberam, também, que as pessoas em tratamento tinham acesso indiscriminado a remédios controlados enquanto tentavam se livrar de seus vícios.
A clínica, localizada no Recanto Fortuna, às margens da rodovia Tancredo Neves, funcionava há pouco mais de um ano e tinha 12 pacientes. Segundo informações da Polícia Militar, não havia acompanhamento clínico algum e o seu proprietário retinha o cartão de benefício da aposentadoria de um dos internos, que correspondia a cerca de R$ 1,3 mil mensais.
Os outros internos disseram que eram mantidos por dinheiro enviado por seus familiares. Alguns pagavam R$ 300, outros R$ 600 e os valores de outros pacientes chegavam a R$ 1,5 mil, de acordo com a condição financeira da família. Ainda segundo o que foi constatado pela PM e também pelo fiscal da vigilância, André Szabo, não havia alvará de funcionamento nem extintores. Além disso, os pacientes ficavam em um local com condições precárias de higiene e o acesso a remédios controlados era fácil. Após o fechamento, segundo o dono do local, os 12 internos foram encaminhados aos seus familiares.
‘Gato’ na água
Durante revista pela chácara, os policiais ainda constataram que havia uma ligação clandestina de água, e a Sabesp foi acionada. Aos PMs, o dono da clínica confirmou o “gato” e disse que foi instalado antes mesmo dele chegar. Disse que um outro homem teria lhe informado que “o uso da água era livre”.
O caso de furto de água e risco à saúde foi registrado e encaminhado para o 3º Distrito Policial. Segundo o delegado Leopoldo Novais, responsável pelas investigações, o dono da clínica já prestou depoimento e disse que não sabia da irregularidade. A polícia segue realizando oitivas e aguarda um laudo que poderá comprovar o “gato” na ligação e, também, um parecer da Sabesp, para informar se houve prejuízo financeiro e, assim, configurar o delito como furto.
Reincidente
Para Szabo, não há dúvidas das irregularidades e o dono da clínica tem 10 dias de prazo para se reajustar e, depois, realizar as penalizações. “Após esse rito legal, tomaremos as medidas cabíveis em relação a multas, até que porque, pela informação que tivemos, ele é reincidente. Já fechamos esse local em outra ocasião, sob comando da mesma pessoa, que descumpriu o estabelecido de manter o local lacrado.”
‘Nunca mais quero mexer com isso’
Uma semana após a vistoria no estabelecimento, que funcionava de maneira irregular, seu proprietário disse que está obedecendo a ordem de manter a clínica fechada. Atribuiu a fiscalização a um “ex-funcionário” que teria atuado de forma voluntária. “Foi por puro descontentamento dessa pessoa”, disse o dono, que é pastor evangélico e mora em São Joaquim da Barra.
Segundo o proprietário, a falta dos documentos se deve ao fato de “estar de mudança”. “Eu estava organizando tudo para irmos para outro endereço. Seria em São José da Bela Vista. Já estava tudo organizado. Mas nunca foi uma clínica, era uma forma de ajudar essas pessoas. O que fazíamos era receber uma ajuda de custo das famílias. Não tem nada de Prefeitura ou encaminhamento deles.”
A respeito dos remédios dispostos de forma indiscriminada, como consta dos registros das autoridades, o pastor negou. “As pessoas escrevem o que elas querem. Apenas dois que estavam internados tomavam remédios controlados. Tenho receita disso, mas no dia não consegui mostrar”, disse. “Esse foi o ponto final. Passei um susto muito grande e não quero mexer com isso nunca mais. Agora cuidar da minha família.”
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