Esqueça o Brasil da hiperinflação do final dos anos 1980. Esqueça o Brasil da inflação do início dos anos 2000. Esqueça o Brasil da inflação de dois dígitos de 2015. O País fechou 2017 com o menor índice desde 1998. A marca é histórica, não só porque é a mais baixa em 19 anos, mas porque é a primeira a ficar abaixo do piso desde que a política de metas de inflação foi implantada pelo Banco Central, em 1999. O IPCA - índice de inflação oficial - do ano passado ficou em 2,95%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nessa quarta-feira.
Com o regime de metas de inflação, o BC delimita uma margem em que o índice pode flutuar. Para 2017, o centro da meta era 4,5%, com teto de 6% e piso de 3%. Sempre que o número fecha o ano fora da meta, o Banco Central deve enviar uma carta aberta ao Ministério da Fazenda, explicando as razões para o descumprimento. Esta será a primeira vez na história do País que o BC terá de se explicar por a inflação ter ficado abaixo do previsto. Mais que mera formalidade, a carta tem o objetivo de convencer o mercado de que o governo tem controle sobre a economia.
Entre as razões, a queda no preço dos alimentos, patrocinada pelo aumento de 30% na safra do ano passado e baixo poder de compra das famílias, que derrubou o consumo do brasileiro. O grupo “alimentos consumidos em casa” teve queda de 4,85%, puxado pelas frutas, com baixa de 16,52% nos preços. Também contribuíram para a baixa inflação as ações do próprio BC, com as constantes reduções da taxa básica de juros - em dezembro, a Selic caiu a 7%, menor índice da história. A normalidade, porém, deve reinar em 2018 - ano de incertezas, com eleições presidenciais e expectativas sobre a votação de reformas estruturais, como a da Previdência. O preço dos alimentos também devem se realinhar. E a inflação ficar dentro da meta.
Em que pese os baixos índices, eles não traduzem a sensação dos francanos. O gás de cozinha nunca esteve tão caro. Diesel, etanol, gasolina, também. As constantes subidas no preço dos combustíveis e do botijão são fruto da nova política de preços adotada pela Petrobras, que acompanhada a variação da cotação internacional do petróleo. A explicação para esse descompasso entre a inflação e a mordida no bolso do consumidor está no fato de o grupo de alimentos ter maior peso na composição do índice.
Apesar dos números históricos, ao cidadão importa a realidade. É preciso traduzir os índices em avanço na economia, na criação de postos de trabalho, na recuperação do poder de compra do consumidor. É preciso devolver ao brasileiro a sensação de que ele é o senhor de sua própria economia e que a política - e políticos - não o fará regredir à condição de mero espectador das lambanças e roubalheiras que corroem o bolso do cidadão comum.
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