'Ninguém é dono do PSDB', diz presidente da Câmara


| Tempo de leitura: 7 min
No último dia 5 de dezembro, ele foi eleito por unanimidade presidente da Câmara Municipal. Um feito que há anos não se via no Legislativo francano. Antônio Donizete Mercúrio, mais conhecido como Donizete da Farmácia (PSDB), cumpre seu terceiro mandato como vereador e tem o desafio de conciliar os ânimos entre os poderes. 
No ano que passou, a disputa entre o prefeito Gilson de Souza (DEM) e o ex-presidente da Câmara Marco Garcia (PPS) acabou desgastando o clima entre os dois poderes. “Acho que minha grande contribuição será justamente essa. A de ser conciliador. Não estou aqui para derrubar ninguém nem para brigar. Quero o que for melhor para Franca.”
 
O senhor está em seu terceiro mandato como vereador e nunca quis se candidatar a nenhum cargo na mesa diretora. Por que resolveu disputar a presidência agora?
Ser presidente da Câmara era uma coisa que nunca me passou pela cabeça. Mas, no ano passado, fui convidado para uma reunião no gabinete do prefeito e lá estavam seis vereadores. Eles, então, me disseram que gostariam muito que eu fosse o novo presidente. Disseram que meu nome os agradava muito. Eu disse que não queria, mas eles insistiram tanto que chegou um ponto em que comecei a pensar que realmente eu poderia ser útil. Ser um presidente com um tratamento diferente para acabar com a rivalidade, muito forte, entre o Executivo e a Câmara. Essa disputa entre situação e oposição, que está tão grande, na minha opinião, é uma coisa que nem deveria existir. Então, resolvi aceitar. 
 
O nome do vereador Claudinei da Rocha, do PSB, até poucas semanas antes da eleição era dado como certo. Mas ele abriu mão da candidatura em seu favor, o que garantiu ao senhor os 15 votos. Como foi essa articulação? 
Depois que aceitei me candidatar, comecei a fazer as contas. Com o meu voto, eu teria sete. Ainda não era a maioria dos vereadores (são quinze). Resolvi pedir o apoio do Tony Hill (PSDB). Desde o início, nos tornamos próximos. Ele é um cara em quem confio e que sei que posso contar. Nem precisei perguntar. Quando falei que iria me candidatar, na hora, ele disse que o voto dele era meu. Aí fiquei mais tranquilo porque com oito votos eu já estaria eleito. Mas ainda assim quis conversar com o Della Motta (Podemos), que é outro que eu admiro e com quem tenho uma relação de amizade antiga. Foi a mesma coisa. Ele disse que não tinha definido o voto e que apoiaria a minha candidatura. Aí, sim, com nove votos, nem pedi apoio a mais ninguém. Quando o outro grupo descobriu que minha eleição já era certa, o Claudinei decidiu abrir mão em meu favor. Fui eleito com 15 votos, o que significa que tenho o apoio de todos. Isso também me traz uma responsabilidade maior, que é a de ser o mais justo e isento possível.
 
O senhor é filiado ao PSDB, partido que vem fazendo uma dura oposição contra o governo de Gilson de Souza. Mas seu posicionamento tem sido diferente. Tanto que se elegeu presidente com o apoio de toda a base governista. Não é uma contradição?
Desde que entrei na política, adotei um princípio: não julgo partido, julgo pessoas. Meu trabalho sempre foi independente. Sempre procurei analisar as questões e tomar minhas decisões sozinho. Defino como será meu voto. Um exemplo foi o caso da cassação do ex-prefeito Alexandre Ferreira (ex-PSDB, hoje no Solidariedade). Votei a favor dele. Neste ano, fui questionado dentro do PSDB por conta deste meu posicionamento. Houve uma pressão muito grande. Chegaram a fazer uma representação contra mim. Mas deixei bem claro para todos do partido. Sempre respeitei todo mundo e gostaria de ter meu trabalho respeitado também. Sou assim e não vou mudar. Deixei eles à vontade. Não quero sair do partido. Não penso em trocar de partido. Sabe por que? Porque eu estaria demonstrando fraqueza. Estaria baixando a cabeça. Aceitando que esse grupo comande o partido. E é bom deixar claro que o PSDB não é de ninguém. No momento, o partido tem um presidente, mas no ano que vem pode ser outro. O presidente muda, mas o partido permanece. Ele não tem dono. Não é de uma pessoa que acha que pode mandar e desmandar. Agora, se eles me expulsarem, aí vou procurar meu caminho, mas não penso em sair.
 
No ano passado, o senhor enfrentou um processo interno no partido por ter votado favorável ao projeto de lei que alterou as regras para o parcelamento do solo. Como está sua situação hoje no PSDB?
Houve essa representação que citei. Fiz minha defesa, apresentei minhas justificativas e agora estou aguardando a resposta deles. Tive uma reunião muito boa em que pude conversar com todos e expus meu lado. Eu, inclusive, questionei a Executiva sobre o porquê de eles estarem tão afoitos contra meu apoio ao governo do Gilson. Porque na época do Alexandre, ele era do PSDB, e o próprio partido articulou contra ele na cassação. Então, que moral eles têm para me julgar se eles mesmos agiram igual ou pior? O que falo é que não vou mudar meu sistema de trabalho, minha forma de agir. Se tiver que mudar isso, prefiro largar a política. Se um dia eu errar, vou errar porque analisei uma questão de forma equivocada. O erro será meu e não por conta de seguir o pensamento ou a determinação dos outros. 
 
O ano que passou foi marcado por diversos embates entre a Prefeitura e os vereadores de oposição, entre eles, o ex-presidente da Câmara, Marco Garcia (PPS). Como o senhor vê essas discussões? E o que podemos esperar da sua gestão?
A primeira coisa que preciso deixar clara é que não tomarei nenhuma decisão sozinho. Tudo o que for feito será discutido com a mesa diretora e com os vereadores. O presidente tem como obrigação organizar os trabalhos, mas os vereadores precisam participar diretamente. Agora a questão dos embates, penso o seguinte: acho que quanto melhor for o governo melhor para todos. A gente deveria deixar essas discussões que têm como fundo apenas a disputa política para a época de fazer política, que é a eleição. A partir do momento que a eleição acaba, a gente tem que se unir para dar ao prefeito o respaldo necessário. 
 
Muitos dizem, inclusive alguns colegas vereadores, que, por ter sido eleito com o apoio da base governista, o senhor deve conduzir o Legislativo de forma a apoiar todos os projetos encaminhados pelo prefeito. Afirmam que a Câmara dirá “amém” para tudo. Como o senhor vê essas afirmações?
Não estou aqui para privilegiar o prefeito. Mas também não estou para derrubá-lo. Estou aqui para fazer o que é certo. Os projetos que forem apresentados e forem bons para a cidade terão meu apoio, sim. Agora, se for algo que no meu entender vai trazer prejuízo, com certeza me posicionarei contra. Sou conciliador, mas não aceito qualquer coisa. O que vejo nesta disputa é interesse de ambos os lados. A oposição quer derrubar o governo a qualquer custo, quer achar algo para atrapalhar, para criticar, quer qualquer coisa que possa prejudicar o prefeito. E o prefeito e seu grupo ficam se defendendo. Volto a dizer que acho que discussões assim não trazem benefício nenhum. Será quase impossível conciliar todos os interesses. Mas minha intenção é conseguir tornar essa Câmara o mais harmônica possível. Vou exigir respeito entre os vereadores. 
 
Qual avaliação o senhor faz deste primeiro ano do governo Gilson de Souza? Que nota daria à administração? 
Vejo no Gilson muita boa vontade. Ele enfrentou muitas dificuldades já em seu primeiro ano de mandato. Acertou e errou também. Mas tinha a desculpa de estar começando, estar tomando ciência. Agora, essa desculpa não cola mais. Ele precisa mostrar a que veio, mostrar o que quer para a nossa cidade e o que vai fazer pelo nosso povo. Mas acho que ele se saiu bem. Eu daria nota sete. 
 
Este ano é um ano eleitoral.Teremos eleições para deputados, senadores, governadores e presidente em outubro. O senhor tem intenção de se candidatar a deputado, como fez em 2010?
Não. A disputa de 2010 me trouxe experiência e percebi que a dinâmica em uma eleição para deputado é muito diferente da disputa como vereador. É uma coisa muito maior. Não basta apenas trabalhar. Se não tiver apoio, se não tiver dinheiro, não tem como se eleger. E, como te falei, não quero ficar atrelado a ninguém e como também não tenho recursos para custear uma eleição deste porte prefiro não me candidatar. Vou dar apoio ao candidato que eu achar que será o melhor para Franca.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários