Pai de jovem morto em tragédia faz carta para o filho


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Eduardo Brandão, Henrique Pini Maniglia e João Moura Mattos
Eduardo Brandão, Henrique Pini Maniglia e João Moura Mattos
O coronel aposentado da Polícia Militar, João Brandão Junior, publicou, nesta terça-feira, 19, um texto em homenagem ao filho, Eduardo Brandão, uma das vítimas fatais da tragédia no Parque Universitário no último domingo, 17.
 
Em uma publicação no Facebook, em que destacou a personalidade do filho e como o encontrou no acidente, Brandão fez um emocionante relato. Veja logo abaixo:
 
 
"CARTA AO MEU AMADO FILHO DUDU  
 
Bom dia Dudu!
 
Sabe, tenho que pedir desculpa para meus amigos. Não atendi ao celular, nem respondi as mensagens recebidas. 
 
Ontem, quis ficar o tempo todo com esse seu irmão maravilhoso, que está desolado com a sua partida.
 
Desde que você se foi fico refletindo o porquê aconteceu isso. Fico procurando uma resposta. Tentando entender porque no momento mais brilhante e intenso da sua vida você foi embora.
Esse ano deu tudo certo pra você: passou na USP em Ribeirão, que era seu sonho. Foi morar sozinho, contrariando sua mãe que gosta dos filhos embaixo da asa. Estava instalado num apartamento bonitinho, num lugar legal. Ganhou um carro novinho no início do ano, mas que só foi dirigir em abril. Quanta expectativa, né? Você andando de UBER e o carro aqui na garagem.
 
Mas você me conhece bem, tudo a seu tempo e se eu permitisse dirigir sem habilitação, você não ia parar, né?
 
Foi em todos os rolês que quis. Curtiu os amigos. Se agregou na república EDIGLÊ, que tinha tanto orgulho de fazer parte.
 
Começou a namorar a Michele, uma paixão antiga, que eu bem sabia que era e não entendia muito a razão de não engatarem de vez esse namoro. 
 
Tava indo super bem no italiano, 2ª língua, já que falava o inglês “britânico”, como você bem gostava de enfatizar. E era bom nisso! Ficou 5 dias falando com o Peter, chefe do intercâmbio do Rotary da Inglaterra, que falava que você parecia um nativo, lembra??
 
Ontem, atendi somente uma ligação no telefone fixo, pois não parava de tocar. Era meu primo Dilson Jr, de Uberaba, que ligou meio bravo por não ter sido avisado do seu falecimento. Você não conheceu muito o Dilson, mas nós éramos muito ligados até a adolescência. Eu passava todas as férias na casa dele, mas faz tempo que não o vejo. Não sei se sabe, ele é um médium espírita, que tem o dom da psicografia, e na nossa conversa falou que talvez não fosse me tirar a dor da perda, mas que eu ficasse tranquilo, porque as pessoas iluminadas, ou que já tenham cumprido sua missão, vão embora cedo.
 
É Dudu...acho que você veio pra nos melhorar, principalmente a mim. Já tô mudando mesmo, né? Você bem sabe que não gosto de manifestações públicas, procuro ser bem reservado com meus sentimentos, mas hoje tive a necessidade de te escrever e publicar isso no Face.
 
Sabe o Adrovano, psicólogo do Batalhão? Ele disse que precisamos colocar pra fora o que sentimos. E agora, eu tô falando abertamente dos meus sentimentos, tô chorando o tempo todo, logo eu, que nunca choro!
 
Como optei em consolar seu irmão, não consegui responder, nem agradecer as centenas de pessoas que me mandaram mensagens. E senti vontade de fazer isso através dessa carta.
Agradecer a todos pelo carinho e atenção comigo e nossa família em razão dessa passagem.
Você era parecido comigo. Não era de dar muita satisfação, pois pensava: se tá tudo bem, pra que ficar falando? Se alguma coisa estiver errada, aí eu falo!
 
Entro no seu quarto e vejo a foto que foi tirada na última quinta, no Rotary. Acho que já era algum sinal da sua partida.  Não tava programado pra você ir e de última hora foi e, no meio de tanta gente, foi escolhido para fazer a reflexão a Deus naquela noite em que festejávamos o Natal. Mensagem linda!  Acho que você já estava se despedindo de nós.  Quero agradecer ao companheiro Carlim por ter registrado aquele momento.
 
Linda foto! Ela está num porta retrato, sobre a mesa de estudo, junto com seu tercinho, aquele que você gostava tanto, lembra? Tem também um vaso de rosas brancas e também uma vela com a imagem de N. Senhora que ganhamos do Dr. Orlando. Ali, agora acendemos todos os dias essa vela pra iluminar seu caminho. Acho que ali virou um altar, pois é onde fazemos nossas orações.
Você amava tanto seus amigos do “BA”, nem sei a razão do grupo se chamar assim, mas algo curioso me chamou a atenção. No seu mural tinha uma foto, tirada em 2015, na festa da Unimed e que você a pendurou desde então, a mais de dois anos, junto com algumas poucas da nossa família.  Nesta foto está você, o Pini e o Jow Jow . Incrível né? Tantas fotos tiradas com todos do grupo e você pendurou justo essa? Que coisa louca, vocês foram embora juntos! Inseparáveis até na morte! Quando falava que os amigos do “BA” eram inseparáveis, não tínhamos a dimensão desse “inseparáveis”...
 
Você estava tão lindo com a tua tão sonhada barba. Reclamava que era pouca e lembro da sua mãe brincar “não dá pra ter tudo nessa vida: seu irmão não tem cabelo, mas tem uma barbona e você, super cabeludo, com pouca barba”.
 
No dia da sua partida, você estava tão feliz com a aprovação do Águila na medicina, louco pra comemorar com o “BA”.  Almoçamos nós quatro juntos e em seguida rumou pra casa do Fernando Raimundo. Rasparam todos o cabelo pra mostrar a solidariedade. Tanta felicidade, né?
 
Mas mal sabíamos o pesadelo que viveríamos a partir das 23h17, quando o Fernando me ligou. Atendi sem olhar no visor quem era. Ele estava desesperado, pedindo minha ajuda, pois vocês haviam sofrido um acidente e ele estava sozinho no meio do mato escuro e não  conseguia socorrê-los e que estavam muito machucados. Que o caso era grave! Cheguei muito rápido no local, junto com as viaturas do resgate, mas cheguei no carro primeiro, porque foram pegar os equipamentos de salvamento na viatura. Eu vi a luz do celular do Raimundo. Acho que ele tava socorrendo o filho e me disse: seu Dudu tá no chão aí na frente. Estava muito escuro, não vi exatamente quem era. Aí chegou o bombeiro com a lanterna e constatei que era você. Em seguida, chegou uma moça com a maca. Aí te colocamos nela. Nem sei como aquela moça arrumou tanta força para ajudar a carregá-lo. Entrei na viatura do resgate, mas um PM pediu para eu ficar de fora e acompanhei o atendimento pela janela. Procuraram seus sinais vitais, colocaram a lanterna na sua pupila e uma mulher falou a frase que eu nunca queria ter ouvido: pode por a maca no asfalto, porque esse aqui já morreu. Vamos socorrer os outros que ainda estejam vivos! E eu ainda disse: tem certeza?? E ela disse: SIM.
 
Aí fiquei ali com você, sentado no asfalto vendo os outros serem socorridos. Nesse momento o local já estava lotado de pessoas. Fiquei acariciando sua cabeça raspada e aí então, um filme da nossa vida passou pela minha. 
 
Quero te agradecer pelo filho maravilhoso que foi. Brilhante! Leal a seus princípios e amigos. Aliás, agradecer pelos dois filhos maravilhosos que tenho. Cada qual com seu jeito. 
 
Num instante ficou tudo para trás. A nossa vida juntos passou tão rápido e veio a certeza de que temos que aproveitar cada segundo, cada oportunidade de dizer EU TE AMO. Ainda bem, que apesar desse meu jeitão, fiz isso inúmeras vezes. TODOS os pais tem que entender isso, não economizar os abraços e os beijos nos filhos. Ainda bem que em casa isso era uma constante! 
 
Quero aproveitar essa carta para agradecer todos que se envolveram de alguma forma nessa tragédia e nos ajudaram nesse momento tão horrível: os irmãos de farda da PM, os socorristas das ambulâncias, os amigos que para lá correram e outros tantos anônimos que apareceram pra ajudar. Agradecer também, os que trabalharam na ocorrência, os peritos que foram fazer os levantamentos no local, os médicos e enfermeiros que conseguiram salvar dois meninos.
 
Agradecer ao legista e os funcionários do IML, que desempenharam a terrível tarefa de periciar aqueles jovens corpos. Agradecer aos funcionários da funerária que tiveram a tarefa de deixar os meninos em condições de serem velados. Agradecer aos amigos que estiveram em minha casa durante toda a noite aguardando a liberação dos corpos. Agradecer a multidão de pessoas que compareceram ao velório e sepultamento. Agradecer aos funcionários do cemitério, a imprensa que se solidarizou comigo, não ligaram para saber de algo, mas para me confortar e depois transmitiram os fatos da melhor forma para a população.
 
Quero agradecer especialmente ao Fernando Raymundo, por ter seguido seu instinto de pai e ter rastreado pelo celular a localização dos garotos que abreviou o tempo de socorro, permitindo assim, que ao menos dois deles fossem salvos.
 
Me solidarizo com a dor dos pais Mirinha e Ricardo, Renata e Leandro que também estão vivendo esse momento muito difícil. Saibam que tudo aconteceu conforme a vontade de Deus. Não há culpados.
 
Agradecer, finalmente ao Deus misericordioso, que tem nos amparado e pedir que os receba em seu convívio. Pedir também que interceda pelo rápido restabelecimento do Edu e do Teivim, para que retomem suas vidas e sonhos junto a seus familiares e amigos.
 
Descanse em paz meu amado filho,
Papis."

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