A vida continua


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Lembro, com saudade, das visitas à casa dos meus avós maternos, Septímio e Mariana. Eu bem pequeno, ficava fascinado com alguns objetos de estimação do meu avô. Ele percebia a minha admiração e fazia gosto em mostrá-los para mim. Coisas simples mas que marcam o imaginário de uma criança. A máquina de escrever Continental do início do Século XX. Sempre bem cuidada e com fita nova. Serviu por anos para o meu avô escrever os seus discursos e também os bilhetes e cartas a familiares, amigos e correligionários políticos.
 
Gostava de ouvir o tic tac do relógio de bolso âmega de duas tampas e ficava admirado vendo o funcionamento perfeito do maquinário à corda. A caneta tinteiro Parker 51, que muito orgulho dava a ele, pois recebeu-a de presente dos funcionários do Fórum de Cássia, juntamente com uma placa, quando ele deixou de exercer a função de Promotor “ad hoc”. Também me recordo do relógio de parede carrilhão, marca Junghans e a pequena caixinha de imbuia, cheia de “bugigangas”, inclusive dois guizos de cobra cascavel. Segundo o meu avô, quem possuir um guizo guardado, nunca será ofendido por cobra.
 
O interessante é que agora consigo despertar no meu neto Benício, o mesmo fascínio por alguns objetos. Ele adora ouvir o tic tac do meu relógio de bolso Vacheron. As batidas compassadas do Junghans lá de casa e fica igualmente estupefato ao ver os guizos e saber que são da temível cobra cascavel. A história de hoje é bastante simples. Porém, são fatos como esses que estou vivendo com o meu neto e que os vivi com o meu avô que nos dão a certeza da eternidade da vida. Rogo ao Criador para que o Benício, no futuro, viva igual experiência com o seu neto. E, assim, a vida continua.
 
Setímio Salerno Miguel
Advogado Empresarial e Professor da Faculdade de Direito de Franca

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