O esporte, que deveria ser motivo de congraçamento, união e amizade, vem percorrendo caminhos estranhos nestes últimos tempos. Hoje, é utilizado como facilitador para locupletação, manipulação e vilipêndio dos mais altos propósitos de nomes como o barão Pierre de Coubertin, criador dos Jogos Olímpicos da era moderna, e Jules Rimet, um dos primeiros presidentes da Fifa e que idealizou o Mundial de Futebol nos anos 1930. O esporte, que deveria ser uma celebração da fraternidade mundial se torna cada vez mais desvirtuado, principalmente fora de campo. A corrupção envolvendo dirigentes da Fifa (inclusive brasileiros) e do COI (Comitê Olímpico Internacional) serve para sepultar todos os ideais de Coubertin e Rimet. Com as cenas envolvendo torcedores do Flamengo no Rio de Janeiro, as lições que vimos há mais de um ano, quando dois países se uniram para lamentar as vidas perdidas no trágico vôo da Chapecoense, foram em vão.
O futebol brasileiro é cercado por uma malta violenta, formada por “torcidas organizadas” que atacam, agridem, ferem e até matam em nome de uma agremiação que não deveria ser usada como escudo por uma classe de marginais que se infiltram entre os que verdadeiramente torcem, sofrem e defendem seu time com honradez. O problema maior é que estes violentos travestidos de ‘torcida organizada’ são acobertados e beneficiados pelos dirigentes dos clubes que eles dizem representar.
A queda da Ponte Preta para a série B do Brasileirão foi um exemplo dessa barbárie, há menos de um mês. Torcedores derrubaram o alambrado que separa a arquibancada do campo, invadiram o gramado e promoveram uma luta campal que obrigou o árbitro a encerrar a partida antes do tempo regulamentar. Os jogadores do Avaí e da Ponte tiveram que fugir para os vestiários senão seriam trucidados. Como resultado, a equipe de Campinas perdeu dezenas de mandos de jogo e quem fica no prejuízo são aqueles que apreciam o futebol, o clube e perdem uma opção de entretenimento.
A torcida do Flamengo, considerada a maior do Brasil, protagonizou cenas de barbárie. No último jogo oficial do ano, criou um cenário preocupante, porém banal na atualidade: discurso de ódio, brigas, confusões, polícia sem condições de combater o caos. O futebol, que deveria ser a estrela, tornou-se coadjuvante. Os acontecimentos saem dos segmentos de esporte de jornais, rádios e televisões, avermelharam os destinados a notícias policiais. Se nada for feito, corremos o risco de acompanhar tragédias maiores. E o esporte — o futebol, no caso — é muito maior do que isso. Quem sabe um dia ainda voltaremos a ter tranquilidade para frequentar uma praça esportiva só preocupados com o desempenho dos atletas? O verdadeiro torcedor sonha com isso.
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