Lá vem o homem do saco, da escritora e artista plástica Regina Rennó. Foi este livro que a professora acusada de colocar crianças em sacos de lixo utilizou como argumento para justificar sua “metodologia de ensino”, utilizada em uma creche-escola de Restinga. Ontem, ela prestou depoimento à Polícia Civil e confirmou ter colocado meninos, com idades entre 4 e 6 anos, nos sacos de lixo. Porém, afirmou que tudo “não passou de uma brincadeira”.
Acompanhada de seu advogado, a educadora chegou à Cadeia Pública do Jardim Guanabara no final da manhã de quarta-feira e foi ouvida por quase uma hora. Ao delegado Eduardo Lopes Bonfim, responsável pelas investigações, a professora disse que o intuito não era de castigar nenhum de seus alunos e, sim, fazer uma brincadeira inspirada no livro, que aborda a lenda do “homem do saco”, uma figura que rapta crianças e leva para longe de suas famílias. Mas, na obra literária, esse homem é um artista que canta cidade afora.
Segundo Bonfim, a professora da creche-escola “Célia Teixeira Ferracioli” se negou a ver as imagens em que aparece com um saco de lixo na mão e também uma de suas estagiárias. A jovem, na semana passada, disse que foi ameaçada pela educadora caso não fizesse o que ela havia ordenado e não utilizasse o saco de lixo. As ameaças também foram negadas pela mulher, que disse não ter dado nenhum tipo de orientação assim para as estagiárias que ficavam em sua sala.
Ainda na oitiva realizada, a professora enfatizou que tudo foi apenas uma brincadeira e explicou que não passou de uma vez só. Essa informação, contudo, foi descartada pelo delegado, já que há relatos de que ela teria colocado uma criança em um saco de lixo em data anterior à relatada no decorrer das investigações, que já duram dois meses. “Um dos meninos já tinha deixado de ir à creche quando as câmeras registraram o dia em que colocaram crianças dentro do saco”, explicou Bonfim.
A respeito da raquete que mantinha na sala de aula, e era utilizada para bater na mesa e amedrontar as crianças, a professora disse que também não passava de brinquedo. À polícia, afirmou que os próprios alunos pegavam o objeto e batiam na mesa também, pedindo “silêncio”.
A professora substituta
Também foi ouvida ontem, pela manhã, uma professora que presenciou as cenas na sala de aula da creche-escola. Ela esteve na cadeia, ao lado de seu advogado de defesa, e negou qualquer envolvimento com o caso. Disse que, no dia do flagra das câmeras de segurança, foi a única vez em que presenciou algo do tipo, já que é professora de apoio e também fica em outras salas.
No depoimento, segundo Bonfim, ela revelou estranheza pelo “método de ensino” da colega. “Disse que achava estranho, mas, como nenhuma criança chorou e uma até aparece pulando nas imagens enquanto a outra é colocada no saco, pensou ser apenas brincadeira”, afirmou o delegado.
Após prestar depoimento, as educadoras foram liberadas. Nos próximos dias, Bonfim deverá analisar o que será feito para decidir o destino das envolvidas. Uma acareação (colocar todas as partes frente a frente e confrontar suas versões) não está descartada. O inquérito, instaurado como maus tratos, segue na Polícia Civil de Restinga. Todas as suspeitas seguem afastadas de suas funções.
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