A polêmica sairá de cena. No próximo dia 31, Marco Antônio Garcia (PPS), 55, deixará a presidência da Câmara de Franca e voltará a ocupar apenas a cadeira de vereador. No exercício de seu quinto mandato parlamentar, foi presidente por quatro vezes, sendo três de maneira seguida, 2015/16/17. De pavio curto, se notabilizou por brigas com servidores, colegas de plenário e manifestantes. As frases de efeito e a resposta pronta para qualquer questionamento são algumas de suas principais características.
Na última entrevista como presidente, Marco Garcia foi Marco Garcia - voltou a soltar a língua e fez revelações que podem ter desdobramentos importantes. Anunciou que não será mais candidato a vereador e afirmou que recebeu oferta de propina dentro da Câmara, há seis anos. Saiba como foi.
Qual avaliação o senhor faz do período em que administrou a Câmara?
Vou entregar o mandato como presidente de cabeça erguida, com as realizações que eu queria fazer, tanto na parte estrutural, quanto em relação aos servidores. Na parte estrutural, fizemos obras importantes para garantir a acessibilidade, como a instalação do elevador, colocação de piso tátil para deficientes visuais e adequação dos corrimões. Também consegui dar sequência a um trabalho iniciado pelo saudoso Jépy Pereira e colocar no ar a TV Câmara. No que diz respeito aos servidores, implantamos o plano de carreira, que valorizou e segurou os bons funcionários. Antes, eles faziam concursos melhores e iam embora, pois o salário da Câmara não era atraente. Hoje, dificilmente um servidor vai pedir exoneração, já que o salário ficou atrativo. Acredito que fiz uma boa administração, sempre pautada pela seriedade, transparência e zelo com o dinheiro público. A casa está em ordem. Deixei minha marca, fiz história. Acredito que o Donizete da Farmácia (PSDB), que irá me suceder, terá todas as condições de fazer um bom trabalho. Ele é uma pessoa tranquila, sensata e tem acesso a todos os vereadores. Diferentemente do vereador Marco Garcia, o Donizete é mais tranquilo. Eu sou polêmico e ele não, eu entro em bola dividida e ele não. Com a humildade toda, pediu para que eu o ajudasse, mas ele é experiente e não terá dificuldade em dirigir os trabalhos.
Apesar de ser explosivo, o senhor conseguiu pacificar o ambiente interno na Câmara, que era rachado e sempre provocava confusões envolvendo grupos de servidores e vereadores. Como foi possível o cessar fogo?
Olha, vou falar uma coisa... Como sou polêmico, vou falar: é que eu forcei algum servidor a se aposentar. Um servidor que saiu da Casa, que era pivô de toda confusão, por livre e espontânea pressão, se aposentou. Eu trouxe sossego para esta casa. A verdade é esta. Como não tenho papas na língua, não é agora que vou segurar. Tem certas coisas que eu não preciso levar para o cemitério, já falo logo.
Falando em polêmica, justamente no último discurso oficial como presidente, durante as eleições para a Mesa Diretora, na quinta-feira, 7, o senhor revelou que recebeu ofertas de propina durante sua gestão. Como foi isto?
Olha, é uma coisa nojenta. O que tem que acabar neste País é a corrupção. Foi aquele pessoal envolvido na operação Arquivos Deslizantes (que investiga organização criminosa voltada à prática de fraudes em licitações nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul para a compra de móveis de escritório para guardar documentos). O fato aconteceu em 2011, no meu primeiro mandato como presidente. Eles vieram aqui me oferecer dinheiro para eu comprar arquivos deles. Na época, me ofereceram R$ 30 mil. O cidadão, que era ou se tornou vereador depois (da cidade de Catanduva), disse que era uma ajuda para a minha campanha de 2012, que bastava apenas eu abrir a licitação que eles ganhavam. Eu falei que era propina e repudiei na hora. Este ano, o Gaeco realizou a operação e prendeu várias pessoas, inclusive, o vereador. Aqui em Franca, não teve nada. Depois da minha presidência, passou pelo vereador Válter Gomes, pelo vereador Jépy Pereira e nenhum comprou este arquivo, pois era um absurdo. Hoje, o preço normal de mercado de um arquivo daquele gira em torno de R$ 50 mil. Eles queriam R$ 200 mil, para dar propina aos presidentes corruptos, porque quem pega dinheiro sujo é corrupto.
Propostas de vantagem indevidas aparecem, sim. Alguns chegam com conversas estranhas, ou seja, analisando o terreno para ver se conseguem fazer negócios sujos. Eu nunca dei abertura para este tipo de gente. A partir do momento que você tem berço, formação, feita pelos seus pais, que deixaram um legado de honestidade, não entra neste tipo de coisa. Todos precisam ter honestidade, mas o homem público precisa ser mais honesto ainda. Com certeza, propostas de propina aparecem por causa da tentação. Eles sabem que a Câmara tem dinheiro, pode pagar à vista e (ainda) sobra muito dinheiro, então, os malandros chegam e fazem estes tipos de propostas. Aqueles que são atraídos pelo dinheiro fácil acabam entrando neste tipo de coisa. No fim, acabam tendo tamanha dor de cabeça, pois o crime não compensa.
Por que o senhor não denunciou a oferta de propina à polícia? Como presidente do Poder Legislativo o senhor não prevaricou?
Desconversei na hora e falei para o vereador que veio me oferecer dinheiro que a proposta estava totalmente descartada. Como ignorei e encerrei a conversa, achei que não era necessário denunciar, até porque, seria a minha palavra contra a dele. Só estávamos nós dois na sala. Em relação aos outros que vieram me procurar, sai de um jeito mais diplomático. Infelizmente, este tipo de coisa ainda acontece muito em Câmaras Municipais e prefeituras.
O senhor já disse várias vezes que este mandato será o último como vereador. Vai mesmo deixar a Câmara? Seu nome é cogitado como eventual candidato a deputado no ano que vem. Vai disputar as próximas eleições?
Já falei mesmo e não volto atrás. Pode escrever ai. Não vou disputar a reeleição para vereador em 2020. Também não serei candidato a deputado estadual ou federal. Portanto, este é meu último mandato no Legislativo. Vou sair de cabeça erguida, com realizações. Tenho mais três anos como vereador, se assim Deus me der vida e saúde. Se não der e eu for embora, deixarei meu nome escrito na história da cidade de Franca.
Tentará a presidência novamente para encerrar sua passagem pela Câmara Municipal?
Não tenho mais isto como objetivo. Quando me tornei vereador, gostaria de ser presidente pelo menos uma vez. Fui quatro. Então, sou um agraciado. Trabalhei para o Claudinei da Rocha (PSB) ser o meu sucessor no ano que vem, mas não deu certo. Apesar de poder, não coloquei o meu nome (para disputar a presidência). Dificilmente serei candidato a presidente novamente. É muito bom, mas é desgastante, exige um tempo maior de dedicação. Tenho meus negócios particulares e pretendo me dedicar um pouco mais a eles.
O senhor foi taxativo ao afirmar que não disputa mais cargos para o Legislativo, mas não fez referências ao Executivo. Pretende disputar as próximas eleições para prefeito?
Já tive muita vontade de ser prefeito de Franca. No ano passado, cheguei a me colocar como candidato e a aceitação junto aos eleitores foi muito boa. Como eu não havia me planejado, acabei abrindo mão e decidi apoiar o Sidnei Rocha. Para desespero dos meus adversários, não estou descartando a possibilidade, não. Pode ser, sim, que eu me candidate a prefeito ou para vice, mas ainda falta muito tempo. Não vou ser candidato a governador, nem a senador e muito menos a presidente da República (risos).
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