'Governo para o povo, não para os adversários'


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Foto: Charles Rodrigues/Comércio da Franca
Foto: Charles Rodrigues/Comércio da Franca
No dia 30 de outubro de 2016, Franca viveu uma das reviravoltas mais impressionantes da política local. Inicialmente desacreditado e com muitos apostando que sua carreira carreira política estava sepultada, um mineiro de Delfinópolis acabou eleito prefeito da cidade com mais de 90 mil votos. Foi uma virada épica contra o então favorito absoluto, o ex-prefeito Sidnei Rocha (PSDB). Gilson de Souza, 62, aglutinou para ele “todos” os votos de candidatos adversários do primeiro turno, exceto os de Sidnei, e se tornou ali o novo chefe do Executivo. Começava naquele instante um novo capítulo na vida do ex-vereador (foi eleito aos 27 anos, na década de 80) e ex-deputado estadual (por três vezes). A novidade na sua vida também impactaria todos os francanos. 
 
Com um começo delicado e encontrando muitos problemas deixados pelo antecessor, Gilson chega ao fim do ano com sentimento de dever cumprido. “A eleição já foi, passou... Agora, temos que pensar no povo. Essa coisa de ficar com ‘nhem nhem nhem’ não leva a nada... Isso aí já passou”, disse, em entrevista ao Comércio.
 
O prefeito recebeu a reportagem em seu gabinete na última semana e mostrou pela primeira vez como funciona a área de onde saem decisões que impactam a vida de todos os francanos. Assista: 

 
 

Depois de detalhar o funcionamento de sua “nova casa”, Gilson falou sobre os principais momentos de seu primeiro ano como prefeito, dos maiores obstáculos e dificuldades e também do que pretende fazer.
 
Como tem sido o trabalho na prefeitura?
Começamos cedo e costumamos ficar até umas oito da noite, mas estou contente. Pela manhã, saio para visitar obras, dou expediente interno, faço reunião com secretários e analiso a ação de cada área para poder acompanhar o andamento de todas as pastas. À tarde, sempre tem muitos atendimentos com populares, reuniões com vereadores, audiências, etc. É uma rotina puxada, mas muito gratificante.
 
O senhor virou o jogo (na eleição) num momento em que quase ninguém acreditava. Como foi depois disso para o senhor? Como foi chegar aqui? Algo o assustou no começo?
Na realidade, tudo foi novo. No dia 1º de janeiro a gente apenas chegou, mas ainda demorou uns 40 dias para conhecer a máquina (administrativa). Foi o que mais nos fez sair daqui muito tarde naquelas primeiras semanas. A jornada era muito maior, tentando aprender como tudo funcionava. Dávamos expediente aos sábados, domingos, feriados, saíamos daqui às dez da noite... Mas nada me assustou. Eu tinha o sonho de ser prefeito. Me preparei ao longo desses 35 anos (de vida pública). Comecei em 1982 como vereador, trabalhei com três prefeitos... Depois fui eleito deputado, trabalhei com cinco governadores e fui então eleito para ser o gestor da minha cidade.
 
Como o senhor avalia esses primeiros 11 meses de governo?
Avalio de forma positiva, apesar de muitos obstáculos que ninguém podia antecipar. Nesses 11 meses, por exemplo, tivemos que pagar mais de R$ 15 milhões de condenações judiciais referentes a ações dos governos que vieram antes da gente. Nos governos anteriores, por exemplo, o pagamento das férias dos servidores foi feito de forma irregular. Então, muitos servidores entraram com ações contra a prefeitura. A Justiça do Trabalho deu ganho de causa aos servidores e a conta ficou para gente pagar. Olha, são mais de R$ 15 milhões só nisso. Começamos em outubro e agora estamos pagando, enfrentando o problema. Estamos com o pagamento do salários dos servidores em dia, também estamos com 13º em dia. Não tem nenhuma duplicata de nenhum fornecedor atrasada. Estamos 100% dentro da legalidade, seguindo rigorosamente dentro de um projeto de muita responsabilidade. Além disso, fizemos cortes de despesas e buscamos eficiência para reduzir custos em todas as pastas. No total, acho que conseguimos uma economia de 25 a 30%.
 
O que seriam esses cortes?
Economizar mesmo, economizar em tudo. Aqui cada coisinha que você economiza, pela escala, juntando tudo, representa muito. Aqui, nosso lema é trabalhar fazendo muita coisa com pouco dinheiro. 
 
Um dos casos que chamaram a atenção neste ano foi em relação ao trânsito. Como o senhor avalia o trabalho que foi feito, principalmente com a instalação de lombadas e lombofaixas?
Estamos fazendo um trabalho educativo. A Prefeitura não multa. Mas os números de acidentes com mortos, que eram altos, precisavam ser enfrentados. Então, fizemos um levantamento e encontramos a parceria com o Estado de São Paulo e o Detran. Essa ação resultou num investimento de R$ 1 milhão pelo governo do Estado. A parceira começou a dar resultados quase que instantaneamente. Em menos de sete meses, reduzimos em 34% o número de acidentes e, mais importante, derrubamos pela metade o numero de mortes no trânsito. Tudo isso com este conjunto de ações, que envolvem educação, lombofaixas, lombadas, semáforos, sinalização. Quer dizer, hoje nós temos um trânsito muito mais seguro. Quando se tem vidas em jogo, vale todo o esforço. Fico muito orgulhoso com o resultado que conseguimos. 
 
Continua em 2018 a instalação de mais lombofaixas e lombadas?
Temos toda a pontuação dos cruzamentos, dos locais que estão oferecendo riscos e estamos mapeando para fazer o que precisar para diminuir o número de acidentes. 
 
As leis municipais de parcelamento do solo mudaram e vieram anúncios de novas moradias com preços populares. Vieram também as polêmicas, como a denúncia de favorecimento à construtora Pacaembu. Como o senhor vê esse episódio?
O que aconteceu na cidade é o seguinte: o Minha Casa Minha Vida, programa do governo federal, tinha a ‘faixa um’, que é o exemplo do Copacabana (conjunto de 406 apartamentos ainda em fase de conclusão), que temos aqui, cheio de problemas e dificuldades. Depois, o governo Federal praticamente acabou com o ‘faixa um’. Fez ajustes e lançou o ‘faixa um e meio’. Depois, o ‘faixa dois’ e o ‘faixa três’, com outras condições de financiamento e exigências para quem constrói, além da ampliação do limite de renda para o mutuário. Como a legislação do uso do solo do município só dava o direito para fazer empreendimentos do ‘faixa um’ e não havia mais projetos para este segmento, foi preciso mudar a lei para que os construtores pudessem lançar novas casas a apartamentos populares. Tudo para que a gente conseguisse atender a demanda, tudo para conseguir realizar o sonho da casa própria para as mais de 14 mil famílias que pagam aluguel. Então, mandamos para a Câmara um projeto que mudava as diretrizes do uso do solo. Foi na verdade uma adequação para permitir esses empreendimentos, especialmente o ‘faixa um e meio’, de qualquer construtora. Tem empreendedor com projeto de loteamento que está parado há até 11 anos nas áreas técnicas da prefeitura. Em função disso, mudamos a legislação e fizemos uma força tarefa na prefeitura para agilizar a liberação de todos os empreendimentos, tudo dentro da lei. Esse esforço ajuda, inclusive, a gerar emprego na construção civil. Não é só a Pacaembu... Temos também o Parque dos Pássaros, o Santa Clara... São empreendimentos que somam mais de 5,5 mil casas e que não tem qualquer ligação com a Pacaembu. Foi isso. Quando se fala só na Pacaembu, é como se fosse só ela que fosse construir na cidade. O Santa Clara, por exemplo, foi aprovado primeiro. O loteamento da Pacaembu ainda nem foi liberado, porque tem análises que precisam serem concluídas. Mas precisamos agilizar. Para todo mundo.
 
A Prefeitura tem expectativa de novas obras na cidade, de investimento de novas construtoras?
Isso depende de quem está pronto para investir na cidade. A Prefeitura está aberta não só para casas. Qualquer indústria que quiser vir para Franca, a Prefeitura vai apoiar. A cidade precisa. A geração de emprego é muito importante. 
 
A intenção do senhor foi vista por alguns vereadores como um suposto benefício a Pacaembu. Foi aberta inclusive uma Comissão Processante contra o senhor na Câmara. Como é enfrentar no primeiro ano de governo essa situação?
É coisa política. E coisa política, você tem que enfrentar. Fui eleito para fazer um bom governo, e vou fazer. Tenho certeza disso. Mas sempre há um ou outro que talvez não queira que a gente faça um bom governo. Uns ajudam, outros não querem ajudar... Paciência. Temos que seguir em frente. A decisão de mudar a lei para atender o ‘faixa um e meio’ beneficia todo mundo que precisa de casa. Falam que ‘beneficiou o A’... Como eu ‘beneficiei o A’ se todo mundo vai ser assistido? Quando você muda o programa para ‘faixa um e meio’ é para qualquer um que queira investir na cidade. Não é para um único construtor. Tanto é verdade que associação dos loteadores de Franca achou que a mudança que fizemos foi pouca. Querem mais mudanças na lei porque eles têm reclamado da demora. Tem processo parado de loteamento há muitos anos. Temos que agilizar. 
 
A Comissão Processante preocupa o senhor? 
Não, não. É coisa política. E coisa politica não me preocupa. Qual mal que eu fiz ao lutar para realizar o sonho de quem quer ter a casa própria? São decisões de dois ou três vereadores que têm, política e partidariamente, o direito de pedir (a comissão). 
 
Como está a relação do senhor com a Câmara?
Boa, boa. Não tem problema nenhum. Agora, você não consegue ter a totalidade de nada. Nem, na Câmara. Cristo não teve, né? Eu posso fazer o melhor governo da cidade... Mas para dois ou três. eu sou o pior prefeito. E vou sempre ser. Mas quem vai julgar e avaliar é a população. Eu estou fazendo o que está dentro do programa de governo. Estou lutando para cumprir o que apresentei à população na campanha.
 
A saúde esteve um pouco mais tranquila do que anos anteriores, com melhora nos atendimentos do PS e das UPAs. Apesar disso, houve grande queixa quanto a falta de especialistas, especialmente ginecologistas, na rede. Qual a avaliação do senhor?
Boa, positiva. Tivemos um avanço muito grande. É só você pesquisar e ir na rede nossa para ver que nós não temos mais do que 30, 35 minutos para um paciente ser assistido. Isso gratifica. A gente atende mais de 100 mil pessoas no sistema público de saúde. Tanto saúde mental, quanto na Casa do Diabético, NGA, nos prontos-socorros, UPAs (...) Estamos avançando e trabalhando muito para melhorar. 
 
Mas e os ginecologistas? A Prefeitura tem algum plano para tentar melhorar?
Nós já estamos melhorando. Já temos um diagnóstico e aonde não tem a consulta a gente manda (para outros lugares). Às vezes naquele momento não tem naquele lugar, mas pode ser assistido no outro. Além disso, fizemos um concurso recentemente e tem quatro médicos aprovados que vão começar nas próximas semanas. Isso vai ajudar a diminuir o problema.
 
O senhor tem o plano para construção de um hospital, que surgiu, na campanha, como um Hospital das Clínicas. Agora o senhor tem anunciado a intenção de construir um hospital municipal. Como seria?
Não, não. Não é que surgiu como Hospital das Clínicas. Era modelo Clínicas. Se você for esperar o estado construir, é lento, demora demais. Se você tomar a iniciativa e houver a decisão de ter um hospital a altura, você pode ser um braço de parceria com o HC, com um hospital escola... O importante é atender a população. O que não podemos é ficar vendo a população de Franca ter que ir para Ribeirão Preto para ser atendida lá. Nós somos uma cidade de quase 400 mil habitantes. Temos que cuidar da nossa população.
 
Em entrevista recente o senhor disse que poderia começar as obras desse hospital no ano que vem... 
Isso. É isso mesmo que estamos pretendendo. Nós já vamos fazer a licitação do projeto. Estamos pautando os eixos que precisam, incluímos no PPA (Plano Plurianual) e no ano que vem vamos começar a avançar nesse sentido. 
 
E o dinheiro? De onde vai sair? Dos cofres da Prefeitura?
Aí é um outro lado... Temos que iniciar para saber de que maneira concluir. O importante é (começar a) construir. 
 
Sobre moradores de rua, neste ano foram inúmeras reclamações. Como o senhor avalia?
Morador de rua toda a vida teve na Franca. Não é só no meu governo. (Quem reclama) Deu a entender que os moradores de rua só começaram no meu governo. Porque isso (as críticas sobre a falta de ação com relação aos moradores de rua) também é uma política criada pelo adversário. Hoje temos 1.150 moradores de rua. Não começaram agora. A gente está fazendo um trabalho com respeito, porque o ser humano precisa ser tratado com respeito, fazendo um diagnóstico para ajudar naquilo que é preciso. Ontem eu fui homenageado com um quadro por um (morador de rua). Ele é pintor, morador de rua e me deu um quadro. Vou até deixar aqui no gabinete, porque eu achei interessante. Então, são muitas as pessoas que têm talento, que têm toda uma condição. Às vezes, precisam de uma atenção. O ser humano não pode ser tratado de outra maneira se não for com carinho. O gestor tem que ser assim, ele tem que ser firme, tem que ser duro, mas tem que ser coração também, tem que dar apoio. 
 
Muita gente reclama da falta de ação do poder público. 
Não, quem reclama sempre é o adversário. Lógico que precisamos ter as ações. Mas como vai impedir um ser humano de ficar na praça? Qual é esse modelo? Eu vou lá e mando sair? A lei não permite. Ele tem que ser melhor atendido. São situações que existem no mundo todo. Como vai fazer? Não basta só a crítica, tem que trazer a solução. Mas é normal, o governo não vai ter perfeição. Se você fizer o melhor governo, ainda assim você vai ter oposição. Isso é normal. 
 
A fiscalização dos ambulantes, principalmente no Centro, foi outro assunto muito discutido e criticado. O senhor mandou um projeto à Câmara dando poder aos fiscais sanitários para fazer essa fiscalização. Foi a melhor solução?
Você mesmo diz na sua pergunta: ‘foi de bastante crítica’. Como eu podia ser criticado por uma coisa que, quando eu cheguei, estava instalada? A prefeitura estava de mãos atadas (por causa da decisão judicial que proibiu os fiscais de posturas de atuarem no combate aos ambulantes) e não tinha legitimidade para fiscalizar. Quando eu cheguei aqui, quem devia fazer a fiscalização eram os fiscais de obras e posturas, mas eles entraram na justiça. A justiça deu ganho de causa para eles. Eu tive um tempo para fazer (a regularização) após um TAC ser firmado com o promotor. Porque a gente não podia sair contratando, tínhamos que respeitar o limite prudencial (de gastos com pessoal), fazer tudo com legitimidade, com respeito às leis. Como eu posso ser criticado por uma coisa dessas? Não tem jeito. Mas é assim. A crítica existe mesmo quando você não deve. Você vai ser criticado a vida inteira. Porque assim é o sistema politico. É um jogo duro. Mas a alternativa dos fiscais sanitários, considerado tudo, foi a melhor opção. E a mais rápida e barata também.
 
Sobre o transporte público, temos hoje uma das tarifas mais caras do Brasil. Como foi a relação neste primeiro ano com a empresa São José? Haverá cobranças sobre melhoria do transporte?
Se ela é a mais cara, não é minha culpa. Fui (o prefeito) quem deu o menor aumento em todos os tempos. Peguei um contrato em andamento e segui aquilo que estava estabelecido. Têm cláusulas, têm índices, têm regras. Você tinha (a tarifa) de R$ 3,80, chegamos a R$ 4,10, num reajuste de pouco mais de 7%. No ano passado, eles deram 8%. O que a gente tem que fazer? Tem que seguir o que a lei determina. Aqui nós seguimos a lei. A São José é uma prestadora de serviço há muitos anos na cidade. E a gente faz e segue o que o contrato estabelece. 
 
Foi um dos seus melhores momentos ter conseguido baixar a tarifa para R$ 1 no domingo?
Se você fizer a conta e analisar, para o trabalhador representou um ganho grande. Tudo que fiz foi pensando no trabalhador, no mais humilde. 
 
O que os 350 mil habitantes de Franca podem esperar do senhor em 2018? 
Um governo cada vez mais humano, focado no social, voltado para as classes mais simples. É isso que temos que fazer. Cuidar das pessoas. Não deixar as pessoas com fome, sem remédio, sem atendimento médico, sem trabalho. Cuidar bem das pessoas sempre foi meu objetivo. Ter o gosto de ouvir as pessoas e saber de suas necessidades. Ter um governo voltado para isso, compartilhado, que sabe ouvir... E claro, ter uma Franca hospitaleira, alegre, amiga. Deixar um pouco da disputa política de lado. A eleição já foi, passou... Agora, temos que pensar no povo. Essa coisa de ficar com ‘nhem nhem nhem’ não leva a nada... Isso aí já passou. 
 
Exatamente a que o senhor se refere? 
Temos que pensar grande. A cidade precisa de um planejamento estratégico para os próximos 20 anos. Nós não podemos pensar pequeno. O que é bom tem que seguir, independente de quem fez. E, também, você não pode ser combatido por discutir um projeto bom. A gente diz que vai construir um hospital, é questionado... Faz projeto para constituir casa, é questionado... Contrata médico, é questionado... Regulariza cargos por ordem judicial, é questionado... Investe no social, é questionado... Ué, mas espera aí... E a população? A população espera (iniciativas) de todo mundo, do governo, da oposição... Vamos seguir, vamos cuidar de Franca, vamos fazer uma Franca melhor, com muita energia positiva. Nós estamos entre as 100 melhores cidades para se investir no pais. Onde estou errado? Qual é o erro do governo? Estamos pagando tudo certinho. A cidade está limpa, está bem cuidada, bem sinalizada. Onde está o erro? Quem não sabe ouvir as pessoas, não acerta. E nós estamos ouvindo... E vamos continuar ouvindo. Tá certo que (esse jeito) não agrada a todos os políticos. Eles gostariam de estar aqui (no gabinete). Mas não me afetam. Governo para o povo, não para os adversários que gostariam de estar sentados nesta cadeira. E vamos continuar a trabalhar muito. Para o povo. 

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