Na avenida Monteiro Lobato, na entrada do bairro Miramontes, em que pese este ainda ser um bairro periférico e demandar muitas melhorias, a montagem de uma galeria leva opções de compra aos moradores de toda adjacência. Petiscaria e farmácia estão entre as novidades no comércio naquela região.
O comerciante Rafael Rodrigues Cintra enxergou a prosperidade de negócios no bairro e investiu na abertura de um varejão e, também, de uma lanchonete. No mesmo terreno onde há algum tempo estacionava o caminhão para vender sacos de laranja, ele construiu os dois comércios, um do lado do outro. O “Frutas do Rafa” começou primeiro, há seis anos, depois ele montou o “Rafa Sucos” e disse estar satisfeito com as vendas. “Esse ponto é muito bom e movimentado, favorável, principalmente com o crescimento dos outros bairros para baixo do Miramontes”, disse ele, que estima vender só de jarras de suco, 200 unidades por dia. Rafael mora no Jardim Luiza.
As experiências vividas no Centro, Estação e Miramontes por Daniel, Thales, Gisele, Rafael, William e seus milhares de moradores e comerciantes ajudam a escrever a história de Franca, uma cidade que caminha, em expansão, para os 200 anos.
*Curiosidades
Antes de ter o nome atual, o Miramontes era chamado de Arraial das Covas. Segundo historiadores e moradores mais antigos da região, existem ao menos quatro versões para essa denominação. Alguns afirmam que a origem seriam as voçorocas existente no local. Há outra corrente que diga que é por causa dos buracos feitos pelos homens à procura de água. Para outros, no entanto, havia um cemitério indígena no terreno (onde foi construído posteriormente o Centro Comunitário e a primeira capelinha), por isso Covas. “O historiador José Chiachiri, no livro Vila Franca do Imperador, de 1967, escreve sobre o cemitério nesse local. Eu mesmo, em pesquisas de campo no local, encontrei vestígios do cemitério dos índios”, disse o pesquisador da história regional Beto Monteiro.
Já Luzia Tavares da Cruz, uma das moradoras mais antigas do bairro, acredita em outra história que, inclusive, transmitiu para filhos e netos. Ela narra, com riqueza de detalhes, que num tempo antigo, três boiadeiros discutiram porque um deles tomou toda a pinga que teriam para tentar espantar o frio. Eles brigaram e um matou dois de uma vez e os enterrou no pé de um eucalipto grande que existia no bairro. “Todo mundo que vinha de lá para cá, ou ia de cá pra lá, falava ‘passa lá nas Covas’. Aí tinha esse nome e ficou conhecida assim, depois mudou para Miramontes”, conta d. Luzia.
‘Não tenho coragem de me mudar’
As ruas do Miramontes trazem nomes de escritores brasileiros. Transitar pelo bairro é encontrar como endereços a Avenida Monteiro Lobato, a Mario de Andrade, Cecília Meireles e Manuel Bandeira. Andar pelas casas é se deparar com histórias tão fascinantes como as dos personagens criados por esses autores.
Entre esses personagens da vida real, está Luzia Tavares da Cruz, que, no alto de seus 92 anos, esbanja lucidez, carisma e uma pitada de nostalgia quando mergulha na memória e compartilha a infância com quem a rodeia. “Lembro de tudo do bairro, desde dos três anos. Era tudo mato, o famoso capim mimoso, com uma casa salteada da outra, não tinha nada e aí foi aumentando as casas e está assim hoje”, apresenta, com orgulho, o Miramontes.
Uma das moradoras mais antigas, Luzia nasceu no bairro, na época chamado Arraial das Covas, se casou nele e criou os oito filhos - seis homens e duas mulheres - nas ruas que homenageiam estrelas da literatura. “Toda vida morei aqui, só quando tinha marido e ele gostava de fazenda, a gente morou fora, mas depois, voltei pra cá. Só nesse pedaço faz 60 anos que eu moro.”
“Nesse pedaço”, Luzia tem uma vista privilegiada de uma construção que contou com grande esforço do seu pai. A famosa Igreja do Miramontes, a Igreja de Santa Cruz, onde, para muitos, nasceu a cidade. Mas os registros históricos mostram outra versão (leia mais nas páginas seguintes).
Luzia nasceu em 1925 e disse que era criança quando o pai decidiu fazer a nova capela no Miramontes porque a anterior (onde hoje está o Centro Comunitário) era pequena e estava com as paredes rachadas. Ela conta que o pai precisou viajar até Ribeirão Preto para pedir autorização e apoio dos padres para erguer a nova igreja. Conseguiu aprovação. “Era tudo terreno aqui, campo mesmo, e os padres vieram visitar e benzeram o pedaço de terra. Meu pai convidou os fazendeiros todos e avisou que ia fazer a igreja, aí todo mundo bateu palma”, relembra, sorrindo.
Ela conta que uma procissão celebrou o início das obras e que todas as crianças participantes, inclusive ela, jogaram uma pedrinha na fundação iniciada no terreno. “Tem uma pedrinha minha aí na igreja, que lembro direitinho quando joguei. Eles falavam para tomar cuidado e não cair nos buracos porque eram fundos”. A praça em frente à capela homenageia seu pai e se chama Jerônimo Manoel Tavares.
Luzia trabalhou durante anos nesta mesma igreja. Hoje não tem mais condições de saúde para ajudar, mas sua filha dá suporte aos trabalhos junto aos padres. A Igreja tem missas de terça a domingo, oferece catequese e grupos de oração. ‘A gente sempre trabalhou ali. Não tenho coragem de mudar porque tenho dó de deixar a igreja que meu pai fez’.
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