José Luís de Oliveira Beneli, 66, trabalhou por 35 anos no Banco do Brasil. Com formação católica e espírito conciliador, era reconhecido na agência pelo gosto em colaborar e pela facilidade de colecionar amigos. Em 2007, se aposentou. Engana-se quem pensa que ele aproveitou o tempo livre para curtir a esposa, filhos e netos.
Beneli foi atuar como catequista do crisma na Igreja de São Sebastião e coordenador de liturgia na Santo Antônio. Tornou-se voluntário da Pastoral do Menor e colaborador do programa de assistência religiosa na Fundação Casa. Não é só. Beneli arrumou também um tempinho para ajudar no Centro de Voluntários do Hospital do Câncer. Passou por diversos setores até chegar à presidência. Foi o primeiro homem a ocupar o cargo. Hoje, coordena um exército formado por 600 voluntários que vestem rosa e se dedicam a ajudar portadores de câncer. Não por acaso, são chamados de anjos. Conheça a história do homem que nasceu com o dom de ajudar.
Como teve início a história do senhor como voluntário do Hospital do Câncer?
Sou voluntário desde 2008. Minha esposa e eu iniciamos no setor do café. Depois, fui para a recepção e acolhimento. Em seguida, me convidaram para ser tesoureiro e fiquei no cargo nas três últimas administrações. Em 2016, assumi a presidência do Centro de Voluntários. Sou o primeiro presidente homem.
O Centro de Voluntários foi fundado por mulheres no dia 1º de agosto de 2001. Eram 150 mulheres, que viram este trabalho em São Paulo e resolveram trazer para cá. Duas delas estavam com câncer. Hoje, são cerca de 600 voluntários registrados com contrato de adesão.
Do total de voluntários, quase 500 são do sexo feminino. Como é lidar com tantas mulheres?
É preciso ter muita paciência para buscar o consenso em uma reunião onde a maioria dos participantes é mulher. Quanto eu estava no setor financeiro, cheguei a dizer: “Só venho para a reunião quando houver assunto de tesouraria. Do contrário não venho”. Hoje em dia, eu lido diretamente com as coordenadoras, e semanalmente, me reúno com a diretoria. Percebo que as mulheres têm uma peculiaridade diferente dos homens: elas conseguem entender o que todas estão falando. Mesmo que estejam falando ao mesmo tempo. Os homens, na grande maioria, têm que ‘abrir uma gaveta por vez’. Se uma gaveta está aberta e for preciso abrir outra, não consigo concentrar. A mulher abre dez gavetas de uma vez e todo mundo entende o que elas estão falando (risos).
Agora, como presidente, eu faço a pauta e discutimos sobre ela. Depois, as voluntárias podem ficar à vontade para falar sobre o que quiserem. Se não for assim, não há consenso.
Quais os principais trabalhos realizados pelo Centro de Voluntários?
Hoje, atuamos em 18 setores diferentes. Procuramos atender os pacientes em todos os caminhos que eles percorrem durante a estadia no Hospital do Câncer. Recebemos os pacientes novos todas as segundas-feiras, juntamente com a assistente social, nutricionista e psicólogo. É quando explicamos o que é a doença, o que vai acontecer e os prós e contras, pois tudo isto influencia na vida da pessoa. Ao ouvir que está com câncer a pessoa baixa o auto estima totalmente. Nossa missão é tentar aumentar esta auto estima. Também oferecemos o serviço de café, leite e lanche de segunda à sexta-feira para seis mil pacientes e acompanhantes/mês. Hoje, temos 3,2 mil pacientes em manutenção ou tratamento.
O apoio dado pelos voluntários é fundamental para amenizar o sofrimento dos pacientes....
A gente percebe isto claramente pelas respostas que eles nos dão. O acolhimento ali na portaria, receber uma pessoa, fornecer uma cadeira de rodas, dizer a ela um bom dia, são gestos simples, mas de grande alcance para quem precisa.
Nossa missão principal, e que as pessoas querem e não têm lá fora, é fazer com que sejam ouvidas. Às vezes, um paciente chega a passar oito horas na quimioterapia. Temos equipes lá que fazem entretenimento e, principalmente, ouvem. Na pediatria, temos brincadeiras com as crianças, temos equipe de contação de história para pacientes que estão internados na Santa Casa. Há, também, o grupo que se chama “Bem Estar”. Recebemos, juntamente com a coordenadora e uma psicóloga, os pacientes e acompanhantes que querem participar. Existe motivação, música e muita conversa. Também fazemos o Reiki e vamos visitar as recepções, fazemos orações. Com isto, esperamos tornar o hospital um pouco menos desagradável. Buscamos humanizar o hospital. Os voluntários estão no Hospital do Câncer, na Santa Casa e no NGA da Prefeitura.
Qual é o custo para manter esta estrutura de ajuda ao próximo?
Temos um custo mensal de cerca de R$ 30 mil. Precisamos aumentar e incrementar o serviço, pois a necessidade é muito grande. O problema é que a parte que cabe ao Estado não está sendo feita como deveria. Nós doamos cerca de 400 latas de suplementos alimentares aos pacientes todos os meses. Cada lata custa em torno de R$ 50. Emprestamos cadeiras de rodas, fornecemos cestas básicas e de frutas, verduras e legumes, tudo por indicação médica e nutricionista. Contamos com a colaboração dos doadores e associados, que conhecem o nosso trabalho, a nossa transparência e a nossa seriedade. Prestamos conta à população, aos parceiros e patrocinadores, de tudo o que fazemos. A comunidade reconhece nossa credibilidade.
A campanha de vendas de camisetas teve como slogan “Anjos Existem”. É uma referência aos voluntários?
Sim. Nós tivemos dez sugestões de nomes e discutimos com a nossa equipe. Fizemos esta escolha, pois consideramos os voluntários como anjos do bem. Eles estão sempre dispostos a ouvir, servir, a olhar nos olhos dos pacientes e a ajudar. Consideramos que são anjos que estão disponíveis no nosso mundo e exercendo o seu dom de servir ao próximo.
O que significa para os voluntários deixarem suas casas e ajudarem a pessoas que eles nem conhecem?
Servir ao próximo é servir a Deus. É fazer aquilo que Jesus nos pediu: amar a Deus e amar o próximo. É, também, uma forma de buscar a felicidade. A mesma alegria que os pacientes têm de receber um apoio, os voluntários têm ao receber um simples sorriso, um agradecimento. Muitos me dizem que ser voluntário virou sentido de vida, motivo de alegria. Temos voluntário com 86 anos que está firme com a gente. Sentimos que falta este servir dentro do nosso coração, é uma coisa que agrega, que traz espiritualidade, sentido de vida. Servir é um dom que Deus nos deu. Temos muitos voluntários que tiveram câncer e resolveram, depois, serem voluntários pelo que receberam durante o tratamento. Poder ajudar ao próximo nos traz muitas felicidades.
Como fazer para ser um voluntário ou contribuir com doações?
Basta entrar em contato com nosso escritório por meio do telefone 3704 2122. Todos estão convidados a nos visitarem e conhecerem nosso trabalho. Pretendemos trazer empresários para conhecerem nossa instituição. É só vendo que a pessoa vai ter noção do que é o nosso serviço voluntário, que vai formar uma opinião. Para ser voluntário, é preciso ter 18 anos e disponibilidade de duas horas semanais para ajudar. O interessado passará por uma capacitação, receberá orientações e irá escolher o setor em que pretende trabalhar.
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