Para meus netos, Matheus e Thiago
Que negros somos nós que nada sabemos dos
quilombos que ensinaram liberdade no
país inteiro
Que negros somos nós que nada sabemos das lutas
gravadas com sangue suores e prantos na
memória da história
Que negros somos nós que nada sabemos das
glórias dos tempos idos dos horrores sofridos
por nossos avós
Que negros somos nós que nada sabemos da
linguagem telegráfica dos tambores
Que não mantemos acesa a chama que outrora
brilhara como estrela-da-guia
Que nada fazemos para descobrir nossa origem
nossas raízes
Que não damos valor à nossa cultura no dia a dia
ou então (o que mais ocorre) a desconhecemos
completamente
Que negros somos nós que descrentes nos
envergonhamos da nossa religião que nós
muitas vezes chamamos de feitiçaria folclore
mitologia
Que negros somos nós que nos envergonhamos de
negros sem procurar compreendê-los
Que negros somos nós que nos envergonhamos da
escuridão de nossa pele lábios grossos do
nariz chato do cabelo duro
Que negros somos nós principalmente os de
movimentos negros que dizemos combater
preconceitos e temos às vezes mil preconceitos
no peito
Que negros somos nós que na ânsia de ascensão
humilhamos e preterimos nossos próprios
irmãos mais pobres ou mais escuros
Que quando conseguimos boa situação na vida
tantas vezes nos isolamos em torre de marfim
ou casamos com pessoas brancas só porque
são brancas
Que somos ridicularizados nas ruas nas praças
nos clubes na imprensa em toda parte
e permanecemos de braços cruzados
Que somos pisados a todo momento com crueldade e permanecemos de braços cruzados
Que somos jogados como sucata na lata de lixo
da sociedade e permanecemos de braços cruzados
Que negros somos nós que só sabemos chorar à
beira da estrada e não fazemos nada
Que negros somos nós que não marchamos a
caminho do sol ombro a ombro com outros
oprimidos de todas as cores de acordo com a
tradição sob o comando de um novo Zumbi
Que negros somos nós que desvivemos desunidos
desconfiados uns dos outros por aí sem rumo
sem líder nenhum
Que negros somos nós que não mais empunhamos
a espada afiada de Ogum
.................
*O poema faz parte do zine Poemas Escolhidos
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