Conheci Carlos de Assumpção nos bancos universitários, onde ambos cursamos Letras na Unesp. Ele era bem mais velho que a média da turma, que andava ali por volta dos vinte anos. Alguns o chamavam de “Seu Carlos”- uma reverência que ainda permeia a fala de outro escritor, Luis Cruz, quando se refere ao poeta que integra várias antologias no país e se tornou verbete de importante dicionário de literatura.
Eu sempre o tratei por Carlos. Ele se sentava na primeira fileira, prestava bastante atenção às aulas e parecia tímido. Mas quem dele conseguia se aproximar, ganhava em exemplo e atitude. Modesto, nunca nos disse que já tinha, então, escrito um poema que conquistara prêmio em concurso relevante. Discreto, jamais mencionava ter recebido em São Paulo o título de Personalidade Negra do Ano 1958, em evento patrocinado pela Associação Cultural do Negro. Apenas dois de nossos professores, João Penha e Expedito Ignácio, tinham conhecimento desses fatos, o que se soube muitos anos depois.
No nível discente nossa vida era muito corrida, pois à exceção de três colegas, todos acumulávamos funções e lecionávamos em escolas da rede pública ou particular. Carlos numa cidade da região, parece-me que Rifaina. E a luta era brava para todos; a fim de dar conta da faculdade e das aulas, tínhamos de batalhar noite e dia. Sobrava pouco tempo para papos descontraídos. E, registre-se, naqueles anos de chumbo andávamos também um pouco assustados, mais calados que falantes.
Diploma na mão, tragados por exigências burocráticas, como concurso de ingresso ao magistério, escolha de vagas, transferências de escola etc , nos perdemos de vista. Às vezes, nos intervalos de umas coisas e outras, tinha notícias dele. Bem depois vim a saber em detalhes como o nome de Carlos de Assumpção alçara o patamar onde brilham aqueles cuja obra se faz reconhecida pela denúncia ,reivindicação, engajamento.
Fui ler o que era possível encontrar do Carlos. Em 1982, onze anos após nos formarmos, ele havia publicado Protesto, título do poema homônimo, tornado referência, traduzido para três idiomas- inglês, francês e alemão. Seriam necessários outros onze anos para que, em 2000, viesse a público Quilombo. “É um poeta bissexto”, diz Eduardo de Assis Duarte no capítulo Literatura e Afrodescendência no Brasil, Volume 1 de Antologia Crítica. E me pergunto se será mesmo, posto que nem sempre existe perfeita correlação entre a quantidade da produção e sua publicação. Conversando com Irinéa Donizete, jornalista responsável pela entrevista publicada no domingo,19 de novembro, no Comércio da Franca e no Portal GCN- Salve, salve, Carlos de Assumpção, me dei conta do que já desconfiava: Carlos tem uma produção enorme, que pode se perder se não for resgatada, organizada e publicada. Ela pede um editor com urgência, para levar a cabo pesquisa ampla que traga à baila inéditos e outros que podem ser encontrados em
jornais, revistas e, atualmente, também na Internet, espaço que o poeta vem ocupando.
E foi assim, com a certeza de que há necessidade de se preservar a obra de todas as formas, que recebi com alegria o zine, publicação independente organizada por fãs, Poemas Escolhidos, lançado no sábado pela Artefato Edições, trabalho conjunto de Ana Teresa Costa, Igor do Vale, Lígia Sene e Victor Prado.
O livro reúne os poemas mais conhecidos do autor, que indicou para a contracapa Autorretrato:
“Eu sou a noite/ Sem destino/ Esbofeteada pelo vento/ Nesta selva branca// Noite que procura caminho/ Como o faminto/ procura o pão// Noite/ Que conserva/ Orgulhosamente// a despeito de tudo/ Um punhado de estrelas/ em cada mão.”
Nesses versos se percebem com clareza traços recorrentes na obra do autor, como uma oralidade à Olavo Bilac, própria de textos que crescem na declamação; e a presença de antônimos que ganham corpo em metáforas, como noite/ branca. Todos os elementos da poética de Carlos de Assumpção confluem para a eufonia e o embate dos contrários.
No que diz respeito à forma, o ritmo cola no ouvido e repercute como as batidas do tambor, de que é exemplar o onomatopaico Batuque: “Tambor que bate/ Batuque batuque bate/ Tambor que bate/ Batuque batuque bate”. A rima ecoa nas tônicas finais retumbantes– “(...) Sou irmão de todo mundo/ Todo mundo é meu irmão// Todo mundo é meu irmão/ Mas o racista não/ Racista não é meu irmão.” As imagens são belas, mas não sofisticadas : “Em toda parte/ Muitas mãos de ébano/ Estão tecendo o destino da Raça”. O vocabulário prosaico facilita o entendimento- “Cúti por enquanto nada de chute/ No saco de Papai Noel/ Só porque não traz/ Boneca preta no Natal”. O relato linear promove uma comunicação rápida, objetivo do autor: “ Nós somos Dons Quixotes/ Em cavalos de sonhos vamos/ Por toda parte da cidade/ Semeando palavras como sementes/ Dividindo o pão do bem mostrando caminhos/ Levando esperanças a quem não tem”, canta em Arco-Íris, dedicado a Regina di Franca.
Quanto às temáticas, resumem-se quase todas a uma oposição entre primeira pessoa- singular ou plural, negra, que contradita a terceira- ele ou eles, detentora de poder e branca, de que são emblemáticos o poema de abertura- Eclipse, e o antepenúltimo- Cadê. Ente um e outro, ressurgem figuras icônicas como Zumbi dos Palmares, herói e mártir; e outras questionáveis em seus gestos, como a Princesa Isabel, tratada com certo desdém. Fatos do cotidiano que são até hoje uma prova de que muito há de se caminhar até que o preconceito seja banido reaparecem em poemas como Três quadrinhas e Questão de Sorte ; este último, um soco no estômago.
Mas em alguns momentos a retina da alma captura outro alvo. É o caso do oportuno Esses fanáticos; do sensual Mulher Negra ; do lírico Tema de Natal ll; do plástico Canção de Amor: “Abram a janela./ Deixem o vento trazer nas suas asas/ Lembranças da minha terra// Da Curuçá faceira de céu azul cheio de luz;/Das casas de mil janelas, como olhos de madeira/ Vigiando à tarde ruas estendidas ao sol”
Além dos poemas, o zine traz três apreciações expressivas para entender a obra do poeta que tem dedicado sua existência a combater o preconceito, a injustiça, o desrespeito, a opressão, o racismo. Falam sobre o artista Aristides Barbosa, Eduardo de Assis Duarte e Zélia Maria N. Neves Vaz. Ana Teresa Costa Silva assina a Apresentação, onde destaca o poema Profecia com bonita reflexão: “Tudo aquilo que possuir a capacidade de criar, possui muito mais do que isso e está além de si próprio. Resiste com uma densidade única no tempo, pois não existem criações estéreis, já que todas, absolutamente todas, quando tocam, fecundam, transformam e, assim, garantem o fluxo da própria vida.”
É digna de louvor a iniciativa dos que trouxeram de novo a público este conjunto de poemas que reverberam dores nevrálgicas mas são também prova de resistência e atualidade. Pois como escreve na revista Veja desta semana Luiz Felipe de Alencastro, professor de Economia na FGV, “As misérias do Brasil atingem a todos, porém são mais corrosivas na herança da brutalidade escravista”. A arte pode ser uma das armas no combate a mal tão arraigado.
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