“Eu sou Carlos de Assumpção /Sou irmão de todo mundo / Todo mundo é meu irmão (...) / Mas o racista não / Racista não é meu irmão”. Neste trecho da poesia intitulada Irmão de Todo Mundo, de sua autoria, o professor, escritor, poeta, advogado e militante resume a que veio. Nos últimos tempos, no auge dos seus 90 anos de vida, Carlos Assumpção é um desinquieto. Com passos lentos ele vai longe e não encontra barreiras para levar pessoalmente sua arte e incentivar principalmente as novas gerações a seguirem por este caminho, em especial a juventude negra.
Neste último sábado, dia 18, na Concha Acústica, foi lançado o Zine Poemas Escolhidos, pela Artefato Edições. O livro é uma coletânea de poesias do poeta ao longo de sua carreira, que soma duas obras lançadas: Protesto (1982) e Quilombo (2000).
Nascido em 1927, no dia 23 de maio, na cidade de Tietê (SP), Carlos diz que o interior do Estado, mais precisamente Franca, é a cidade que o escolheu e o acolheu. Tido como um dos maiores poetas negros vivos da literatura brasileira, Carlos faz questão de ressaltar que este reconhecimento atual veio diante muitas lutas e frustrações. “Eu quero é passar a minha mensagem. Esse de ser o maior ou melhor, não faço muita questão. Quero que me ouçam”.
Autor de Protesto, lido pela primeira vez em 1956 na Convenção Paulista do Negro e 1º lugar no concurso de Poesia Falada de Araraquara (SP), Carlos é membro da Academia Francana de Letras, formado em Letras e Direito, pela Unesp e Faculdade de Direito de Franca, diretor do Coral Afro-Francano e um dos fundadores do Grupo Veredas. Além disso, o escritor premiado tem o texto mais famoso traduzido em inglês, francês e alemão.
Carlos fez o Curso Normal destinado à formação de professores na qual ele poderia lecionar para o ensino fundamental. Nesta época, as oportunidades não surgiram e ele precisou atuar como ajudante de caminhão, servente de escola e outros serviços braçais. “Eu queria era dar aula, mas não me davam oportunidade”. Em uma emissora de rádio, Carlos foi ao vivo pedir por um emprego em sua área de formação. Mesmo com o apelo, não teve sucesso. Conseguiu outra vaga, para atuar em um laboratório, mas ainda não era o que almejava.
Mais tarde, ele tentaria novamente dar início a carreira de professor. A oportunidade surgiria em Rinópolis e em Tupã. Posteriormente, ele veio tentar oportunidades no interior de São Paulo e chegou a Rifaina com a família. Lá, além de lecionar, atuou como vereador. Anos depois, descontente com a política, conseguiu emprego em Franca e aqui conseguiu se projetar. No dia que antecede o dia 20 de novembro, data que lembra a morte do guerreiro Zumbi dos Palmares e celebra a Consciência Negra, ele relembra sua história e o que o faz permanecer nesta luta pela disseminação da literatura, cultura e combate ao racismo.
Dia da Consciência Negra
“Vai ser sempre uma data que vai chamar atenção. Consciência é ver o que está acontecendo. É tomar consciência do que está se passando. Isso é muito importante sim. Este dia é uma referência, consciência tem que se dar todos os dias”.
Cotas raciais
“É importante. Há negros que acham que as cotas diminuem, rebaixam, desqualificam e veem como coisa negativa. Eu acho que é positivo. Tenho dois netos que fizeram curso superior por meio das cotas. Se não fosse isso eles não fariam. A cota ainda é pouco. O negro merece cota sim. É uma maneira de reparar o dano da escravidão e posteriormente o racismo. Esse novo tipo de escravidão que nós vivemos prejudica o negro. Ainda falta muito. Tem um movimento no Brasil todo de reparação que eu acho que é muito certo porque o País deve muito aos negros e ainda não fez nada e parece que não pretende fazer muito. O racismo rebaixa o negro. As cotas não”.
Mais poesia e mais cultura
“A arte pode valorizar o ser humano. É isso que eu pretendo alcançar com tudo que faço, principalmente ao que está relacionado a poesia. Tornar o negro mais visível na sociedade é fundamental”.
Preconceito na pele
“Que negro nunca sentiu isso? Só se for cego pra não ver (o racismo). Passei em 1º lugar no concurso de professores na década de 70. Já era professor na rede estadual, aposentei e não quis ficar parado. Passei no concurso e consegui como professor de Português na rede municipal. Escolhi dar aula no Colégio Champagnat e, no dia de me apresentar, a diretora sugeriu que eu lecionasse no Jardim Aeroporto. Expliquei que minha escolha seria por questões estratégicas por ser mais perto da minha casa. Tive que bater de frente para conseguir. Mas sofri perseguição, tive que me afastar. Mesmo assim, ainda fui paraninfo de uma turma”.
Racismo reverso
“Ninguém nunca reclamou pra mim de racismo reverso. Eu também nem acredito que exista isso. O negro que sempre é atacado. O negro não ataca ninguém porque sempre está na escala mais baixa”.
Referência na luta
“Não só os negros, tem até brancos que dizem que gostariam de ser como eu sou. Eu sou uma pessoa que defende o negro, mas não defendo bandalheira, não defendo coisa errada. Eu acho que quando o negro tem razão, quando ele está certo, ele tem que se impor e exigir isso. Se for por uma causa que eu não concordo, prefiro não tomar partido. Independentemente de cor/raça a gente tem que ter uma postura digna”.
Respeito e igualdade
“Sou otimista sim, se não a gente tinha desistido desta luta pela igualdade e respeito. Acho que vai melhorar, como já tem melhorado. Na época em que nasci, o racismo era muito mais forte. E também não tínhamos pessoas negras qualificadas. Hoje temos e muito”.
Educação e progresso
“Fui professor durante 40 anos aqui em Franca e sempre em contato com crianças e jovens. Vi que eles não são perdidos e sem interesse como muitas pessoas falam da nova geração. A gente deve encarar o aluno como pessoa e saber lidar com cada um. Assim dá tudo certo. A educação que não passa pelo coração não atinge ninguém”.
Inspiração e referência
“Eu tenho encontrado muita gente que fala que não gostava de ler, mas que falam que a partir do momento que começou a ir aos saraus e a ler as minhas obras despertaram o gosto/interesse pela literatura. A poesia marca as pessoas. A cultura marca. Isso não dá para esquecer. A escola deveria dar muita atenção neste aspecto: abrir mais janelas para a cultura, para a arte.
Racistas, não!
“O racismo fecha os olhos do povo para muitas coisas. O branco que acompanha o negro e que se solidariza com a causa é porque ele conseguiu se por num estágio mais avançado, mais alto. Isso é o que nos queremos. Não queremos lutar contra os brancos e nem generalizamos. Nem todos os brancos são racistas. Mas os que são às vezes sabem ponderar. O racismo é ignorância. O racismo prejudica todo mundo.”
Sonho para o futuro
“O caminho é o estudo, o caminho é a cultura. Penso que na época de hoje é imprescindível que se adquira conhecimento para romper caminhos, se não ninguém anda sem estar preparado para a vida. Isso é uma exigência atual muito forte”.
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