Sob as águas cristalinas da paternidade


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Ele retirou levemente a roupa, com um jeito acanhado de não saber por onde começar.

Sua sunga colorida não parecia refletir o seu olhar turvo e cheio de preocupação.

Colocou os pés descalços no chão molhado e entrou na piscina, com um ar próprio de reprovação.

A mãe, do lado de fora, arrumara a menina de maneira impecável, dera-lhe um beijo na testa e aguardara o pai vir em sua direção.

E ele veio, com um gesto sorrateiro, com as mãos grandes e calorosas, as quais contrastaram com a água gélida, tocada pelos pequenos pezinhos da criança, ao som de um chuá-chuá.

Ao ritmo da música, cantada pela professora, a aula de natação mal começou e a filha da mãe pôs-se a chorar.

Era um choro contido, com lágrimas confusas de não saber falar.

O pai desconcertado, com olhos arregalados, fingia dominar a situação. Tentava esconder a falta de sintonia com aquela que tantas vezes deixou de estender as mãos.

Lembrou-se dos dias de trabalho e dos brinquedos soltos pelo chão, dos dizeres: “agora não posso”, “agora não”.

Lembrou-se de que a mesma situação outrora lhe favorecia, era ele quem sempre insistia: "ela quer você, não tenho o que fazer" e para o seu ofício voltaria.

Mas aquelas águas límpidas deixaram tudo às claras, feito luz na escuridão.

No fundo, o que ele mais queria, era que a filha também fosse do pai.

No fundo, o que ele mais queria, era tê-la por inteiro em seus braços, dia e noite, noite e dia, para nunca mais dizer-lhe um NÃO.
 

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