O respeitado escritor israelense Amós Oz, em recente passagem pelo Brasil, reiterou que não há respostas fáceis para nós. Nossos problemas ficaram sérios demais. Sem exageros, são fatais. Não sairemos da crise hídrica ou do terrorismo sem enormes doses de sacrifícios de todos nós, mas preferimos esperar. Enquanto fazemos nada, compramos umas bolsinhas de pano, separamos o lixo, respeitamos a faixa de pedestres, sem sequer triscarmos na verdade. Para os governantes, tanto pior – apegaram-se ao imagético para mostrar que estão ou não fazendo algo, pouco importa o que. O recente caso midiático – que meteram no mesmo saco, a farinha, o prefeito e o arcebispo da cidade de São Paulo – ilustra bem.
Uma empresa, a Sinergia (nome saído de algum filme de Hollywood), produz, e capacita outros, a produzirem uma farinha a partir de produtos alimentares ainda próprios para consumo humano, mas que, sem atender a demanda do consumidor, seriam descartados: data de validade vencida ou quase, por exemplo. A mistura serve ao preparo de pães, bolos e também pode ser adicionada a sopas e vitaminas, fortificando-as. Sem qualquer teste, sem explicar do que seria exatamente essa farinata, desconhecendo as necessidades nutricionais da população carente, sem autorização dos meios competentes, o prefeito de São Paulo mandou fazer logo um biscoito com essa farinha, os colocou dentro de um pote, colou uma figurinha da Nossa Senhora, sentou-se ao lado de Dom Odilo Scherer, chamou a imprensa e pretendia se homogeneizar com o sagrado e o orgânico - e por pouco não andou sobre as águas.
Muitos foram os problemas envolvendo esse composto. Fiquemos apenas com o que mais nos interessa. O guia alimentar brasileiro é claro ao indicar o consumo da comida de verdade em oposição aos produtos industrializados, ainda que adicionados de vitaminas. Por algum motivo, parece místico, nosso corpo não aproveita as vitaminas sintéticas, da forma que aproveita os alimentos. Na esteira, João Dória veio ainda com a declaração de que “pobre não tem hábitos alimentares, apenas fome” - o arcebispo assinou embaixo. Prefiro pensar que ele não sabe o que diz, perdoai-o.
Foi pela pobreza que aprendemos com minha mãe a ferver uma língua de boi, raspar os folículos linguais com a gilete do meu pai, aferventar, picar e refogar com cebola. Foi pela pobreza que aprendemos a fazer cabeça de galo com muita água e farinha de mandioca crua, um ou dois ovos para dividir para sete. A tomar chá de funcho do mato, a buscar guariroba. Fundamentalmente, não deixamos a pobreza triturar nossa identidade, e de maneira modesta forjamos nossos hábitos alimentares na mistura do Nordeste e Minas. Contudo, mesmo em situação de miserabilidade, seria dever do governo remar contra a foz dessa tristeza e incutir o consumo de comida que sustenta e dignifica.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.