Quando fui recebê-lo na entrada da sede do GCN, não o reconheci de pronto. Pessoalmente, ele aparenta ser ainda mais jovem do que é. Não trajava terno, nem gravata. Nada de ostentação. Trouxe apenas dois assessores. Sem formalidades, se apresentou sorridente. Foi simpático com todos na redação. Parecia um velho conhecido. Foi nosso primeiro encontro.
Cauê Macris (PSDB) tem 34 anos e é o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, cargo que o pai dele, o deputado federal Vanderlei Macris, também já ocupou. Foi eleito com 88 dos 94 votos possíveis. A bancada do PT votou em peso nele.
Embora jovem, será um dos principais protagonistas da política estadual no ano que vem. Com a possível saída de Geraldo Alckmin do governo para disputar a presidência, será o segundo na linha de sucessão e a maior liderança do PSDB no Estado. Não será surpresa se chegar a se sentar na mais cobiçada cadeira do Palácio dos Bandeirantes.
Na quarta-feira, 25, o presidente da Assembleia veio a Franca apresentar o IPRS (Índice Paulista de Responsabilidade Social) e contou sua história ao Comércio. Conheça Cauê Macris.
Como foi o início de sua trajetória na política?
Comecei no movimento estudantil. Muita gente acha que política é só quem disputa mandato, mas não. Política, a gente faz em todo os lugares, na escola, no emprego e em casa. Quando você vai defender um interesse, você não deixa de fazer política. Brinco que o primeiro cargo eletivo que tive foi ser representante da minha classe na escola, quando tinha 14 anos. Militei no movimento e no grêmio estudantis. Tive a oportunidade, ainda muito jovem, com 21 anos, de me candidatar e representar formalmente minha cidade natal, que é Americana. Na minha primeira eleição, fui o oitavo vereador mais votado. Na reeleição, dobrei o número de votos e tive uma das maiores votações da história da minha cidade. Fui presidente da Câmara com 24 anos. Aos 27, fui eleito deputado estadual. Quando cheguei à Assembleia, era um lugar com o qual já tinha uma boa relação, pois, quando nasci, meu pai estava no terceiro mandato como deputado estadual. Ele tem 11 mandatos. Foram sete como estadual e quatro como federal. Nasci e cresci dentro da Assembleia. Por conta desta convivência, foi muito simples para mim a adaptação. Conhecia muitos deputados antes mesmo de ter sido eleito.
Então, a Assembleia Legislativa é uma extensão de sua casa?
Eu me sinto em casa, sim. Cresci acompanhando o meu pai e vendo os deputados trabalharem. Sempre me interessei pela vida pública. Não é à toa que consegui ser o relator do orçamento duas vezes a partir do segundo ano do meu mandato. No terceiro ano, fui eleito para ser líder do PSDB, que é a maior bancada da casa. Fui reeleito dobrando minha votação. Logo depois, fui convidado pelo governador Geraldo Alckmin para ser o líder do governo. Fiquei dois anos na função. O Alckmin credenciou minha candidatura à presidente da casa.
Mesmo sendo do PSDB, arquirrival do PT, o senhor recebeu o voto de 13 dos 15 deputados petistas. Como conseguiu?
Por meio do diálogo. A política é feita de diálogo. Na hora que você dialoga, você entende as posições da oposição. A democracia tem um pressuposto em que as minorias têm uma importância muito grande dentro do processo político. Muitas vezes, elas enxergam necessidades e ações que nós, que estamos parceiros do governo, não enxergamos. O aperfeiçoamento que fiz de cada um dos projetos que aprovamos, quando fui líder do governo, sempre ouvindo a oposição e a situação, me credenciou para ter o respeito de todos os deputados. O que me caracteriza, mesmo com minha pouca idade, é o respeito de cada um dos parlamentares. Entendo as necessidades de cada um. Sou presidente dos 94 deputados da casa.
Em 2018, Alckmin deverá se afastar para disputar as eleições para presidente. O senhor será o segundo na linha de sucessão do Estado. Já imaginou assumir o governo tão jovem?
Não trabalho com esta hipótese. Tenho uma clareza muito grande de que precisamos estar focados nas ações que são necessárias para o nosso mandato. Sou o presidente da Assembleia. Meu principal objetivo é resgatar a confiança da sociedade no agente político. Infelizmente, a população não confia mais naqueles que assumem cargos público, por culpa da maioria dos próprios políticos. Nosso trabalho é para separar o joio do trigo. Há muita gente boa dentro da política, que faz acontecer e que melhora a vida das pessoas. Só que todo mundo está no mesmo patamar. Assumi a Assembleia num momento político que, talvez, seja o pior da história. Nunca tivemos um momento com tanto descrédito por parte da sociedade. As pessoas não confiam mais nos políticos.
Como reverter este quadro?
Este é meu principal objetivo, a linha do caminho que adotei e estou trabalhando. Três pilares estão norteando minha administração. O primeiro, é a austeridade, ter zelo com o dinheiro público. Precisamos administrar o público como cuidamos do nosso próprio dinheiro. Adotamos medidas de economia na Assembleia, cortamos regalias e estamos renegociando os contratos, zero de reajuste em todos os contratos. Só no contrato de alimentação dos funcionários, reduzi R$ 18 milhões. Este tipo de zelo é o que a população espera. O segundo pilar da minha gestão é a transparência. Lançamos o aplicativo Fiscaliza Cidadão, que permite acompanhar os gastos dos gabinetes. Na próxima versão, vamos inserir toda a parte administrativa da casa. Queremos 100% de transparência. Também vamos criar a controladoria da Assembleia para dar qualificação ao gasto público. Um dos maiores problemas que temos na sociedade é a corrupção, que só existe por falta de controle externo e interno. O terceiro pilar é inovação. Precisamos buscar novos mecanismos, fazer diferente, nos aproximar da sociedade.
O senhor prefere Alckmin ou João Doria como candidato a presidente?
De uma maneira muito clara, transparente e objetiva: Geraldo Alckmin. Ele se preparou para poder ser o presidente da República. Hoje, temos um Estado enxuto, São Paulo não passa por dificuldades que outros Estados passam, graças à política fiscal feita pelo governo. Enquanto muitos Estados não pagam salários dos servidores, estamos fazendo investimentos. O Doria é um grande gestor, está indo bem na Prefeitura de São Paulo, mas ainda tem muito o que caminhar para pensar em ser candidato a presidência da República.
Quando o PSDB vai tomar a decisão?
Ao meu ver, isto já foi feito. Nos nossos bastidores, já tem uma clareza muito grande. O Geraldo já está em campanha, lançou seu site recentemente, mudou o seu tom e já se coloca como candidato de maneira clara e objetiva. O Geraldo já é nosso candidato à presidência da República.
Como avalia a possível candidatura do ex-presidente Lula?
Não vejo problema nenhum. Pelo contrário, acho que ele deve disputar, é importante para o processo democrático. Espero que ele pague, sim, por tudo o que ele fez, mas tirar a possibilidade de ele concorrer às eleições pode dar margem para um discurso de que a eleição está sendo montada para candidato A, B ou C. Ele deve disputar e tenho muita certeza: o povo não vai dar outro mandato presidencial para o Lula. O grande tema de debate da eleição é o problema do Brasil. Nosso problema está muito claro: é corrupção, má-gestão pública. Precisamos fortalecer os instrumentos de controle, acabar com os privilégios para os políticos e fazer o ajuste fiscal.
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