A biografia romanceada de Castro Alves me inspirou e foi trampolim para a leitura de outros livros de Jorge Amado. Contribuíram para isso, sobretudo, duas passagens daquela obra: a reação da tia do personagem, diante do assassinato brutal do próprio filho, e a atitude do jovem poeta diante da violência policial, dissolvendo manifestação estudantil no centro de Recife, capital onde o rapaz estudava.
As palavras com que estimulou companheiros e defendeu direitos perderam-se por entre gritos de dor e de revolta, por entre pancadas e correrias. Perderam-se versos e vocábulos, mas a ânsia de liberdade reverbera ainda nas pedras das ruas e calçadas, e sobretudo remanesce no coração dos homens.
Fragmentos do poema e daquele instante estão registrados nas palavras do romancista baiano:
A praça é do povo
Como o céu é do condor.
Era. Desmentia-o, no entanto, a violência policial.
Aqui, na minha terra, está deixando de ser – dizem-me violências outras.
Acomodado em bancos não pichados, deliciava-me, observando crianças voando atrás de pombos revoltos. Às vezes, com a criança a dois passos, a ave, aparentemente distraída, de repente se esquivava. Arrancando alegria da criança.
Acomodado em bancos limpos, ouvia, satisfeito, histórias da cidade antiga e as rascunhava na alma a fim de não ser perderem personagens da epopeia da terra.
A praça era do povo.
Olhos semicerrados, minha alma acompanhava os passos do corpo, transitando por alamedas e calçadões, pisando nuvens de devaneios. Enquanto isso, a musa pisava “pedrinhas e pedrinhas de brilhante...” E seus pés descalços marcavam novamente a areia de minhas retinas saudosas.
A praça era do povo.
Agora, as alamedas e calçadões viraram ciclovias donde os sonhos são expulsos, sob pena de atropelamentos.
Tomara que o condor não perca seu paraíso. O nosso se foi.
A praça já não há.
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