Quase um mês depois de receber a notícia de que a filha foi brutalmente assassinada, a comerciante Tânia Ribeiro quebrou o silêncio, falou sobre o caso e teve uma atitude nobre. Neste final de semana, em homenagem à Núbia Ribeiro Duarte, de apenas 21 anos, ela criou o bazar “Mais amor, por favor”, das roupas que a filha vendia em seu brechó, localizado na avenida Brasil.
Cerca de três mil peças ficaram à disposição para que, com o dinheiro arrecadado, Tânia possa ajudar entidades francanas que cuidam de animais abandonados. O ato vem como uma forma de conservar a memória da filha, apaixonada pelos bichos, e amenizar um pouco a dor da morte de Núbia.
Enquanto Tânia tenta, aos poucos, retomar a rotina, e conviver com a tristeza de não ter mais a filha - única -, os acusados de seu assassinato continuam presos. O casal de namorados Lauany Viodres do Prado e Leonardo Gonçalves Cantieri, além de Italo Vinícius Neves, seguem detidos e a conclusão do caso está próxima. Mantendo a força e contendo a emoção, a mãe da vítima falou ao Comércio da Franca na manhã de ontem, sábado (21), durante o bazar, sobre os envolvidos, personalidade, amores e sonhos da filha.
Fale um pouco sobre quem era a Núbia.
Minha filha era amor. Era luz, intensidade, luta, humildade e alegria. Não gostava das coisas fáceis e queria conquistar as coisas por mérito próprio. Aos 16 anos de idade, passou por uma fase difícil, pois ficou doente e até quimioterapia precisou fazer. Fez tratamento por dois anos e abandonou os estudos. Recentemente, ela quis retomar. Estava inscrita para terminar o ensino médio e queria se formar. Nunca foi de pensar muito no futuro, ela queria viver o presente e estava feliz. A Núbia sempre deixava alegria por onde passava.
Após sua morte, muitas pessoas fizeram diversas mensagens de amor pela Núbia, através de redes sociais e manifestações. Familiares, conhecidos e amigos retrataram sua indignação e também prestaram homenagens. Para você, como é sentir esse carinho e a solidariedade dos francanos com o ocorrido?
Eu sabia que ela era amada por quem a gente convivia, mas eu não imaginava que era tanto! Fui surpreendida. Esse carinho tem chegado até mim e me confortado muito. Quando a gente perde um filho, perde-se o sentido da vida. Mas não aceito. Não quero dizer que perdi, apenas devolvi minha filha a Deus. Ele me emprestou a Núbia para ser amada e amar, e a levou de volta.
A respeito do crime, o que você poderia dizer?
Não gosto de ficar pensando em como foi e no que ela passou estando nas mãos dessas pessoas. É uma auto-tortura. Ninguém vem com rótulos. Muita gente pergunta: “Mas por que a Núbia foi se envolver com o Leonardo?”. Esse rápido relacionamento com o Leonardo foi tão recente e insignificante para minha filha que não tinha nem como imaginar qualquer coisa. Ela estava solteira e muito feliz, então não tinha nada a ver. Hoje em dia, não dá para saber com quem você se envolve. É preciso comer um saco de sal junto para conhecer um pouco. Quando você não tem maldade no coração, como era o caso da Núbia, é mais difícil ainda enxergar a maldade do outro.
Você tem acompanhado o desfecho do caso da Núbia de perto, mas evita se manifestar sobre os acusados. O que poderia dizer para eles? Você os perdoa?
Isso é difícil. Você perdoa alguém que ama ou tem algum sentimento por essa pessoa. Não é meu caso. Não os conhecia. A única coisa que eu queria que acontecesse é que o Leonardo e a Lauany tivessem um décimo do amor que minha filha tinha pelas pessoas. Gostaria que esse amor os tocassem para que eles se arrependessem. Um dia, se Deus permitir essa benção, a Lauany será mãe. E aí? Perdoar, não. Aqui, deixo a justiça dos homens ser feita. Acredito também na divina.
Você também acredita na participação do Italo na morte da Núbia?
Para mim, a cabeça do crime foi realmente a Lauany. Ela esteve no brechó para discutir e ameaçar minha filha. Pelo que eu soube, através da imprensa, das pessoas e das redes sociais, é uma menina apagada. É uma menina sem brilho e que, talvez, ao ver o namorado buscando minha filha, deixou o ódio tomar conta e fez isso. Já o Leonardo foi um covarde e totalmente influenciado por ela. Quanto ao Italo, creio que ele estava presente em todos os momentos, mas não sei o que ele fez ou deixou de fazer nesse caso.
A Núbia montou o Garimpo Brechó há um tempo e, pelos relatos de amigos, estava empolgada com a ideia. Como foi isso?
Era da loja que a Núbia tirava seu sustento e lutava. O brechó existia há um ano e três meses na garagem da minha mãe, na avenida Brasil, e ela teve uma convivência ainda maior com os avós. No começo, a loja contava apenas com roupas nossas semi-novas. Foi crescendo e ela tomando gosto pela coisa. Comprou uma moto com o dinheiro que ganhou, adquiriu as coisas dela e estava no auge. Minha filha estava muito feliz. Sonhava em vender roupas novas, adorava moda, e já estava começando a introduzir essas peças. Estava com uma clientela boa e radiante com isso.
Como está a rotina da família, quase um mês após a morte da Núbia?
Muito difícil. Só Deus. As horas em que mais desabo são quando acordo e à noite, como no jantar. Sinto muita falta até do secador ligado e das coisas que ela gostava de comer. Voltei a trabalhar. Mas ainda estou indo devagar. Estou medicada e fazendo acompanhamento para não ter mais crises. Tenho de achar forças para seguir em frente.
A paixão dela pelos animais (que a Núbia tinha) foi uma das coisas que te motivou a realizar o bazar, cuja renda será totalmente revertida às entidades que cuidam deles em Franca...
Minha filha foi muito amada desde pequenininha e transmitiu esse amor para as pessoas e animais. Era incrível. A Núbia colocava latinhas na rua com água e ração para os animais que passavam aqui na avenida Brasil. Ela via um, independente do lugar, e ia fazer carinho e cuidar. Dizia sempre que, quanto mais conhecia alguns humanos, mais amava os bichos, pois eles sabem amar e aprendem isso no pouco tempo que ficam conosco; já os humanos, levam 80, 90 anos e não aprendem. Decidi fazer essa homenagem à ela e já estabeleci contato com alguns grupos que cuidam de animais e que precisam de ajuda. Não doarei o dinheiro, serão ração e remédios.
Tem alguma mensagem que você poderia dizer e definir a Núbia?
A música Trem Bala, de Ana Vilela, é a minha filha. Especialmente os trechos “que a vida é trem bala, parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir”; e “não é sobre tudo que o seu dinheiro é capaz de comprar, e sim sobre cada momento, sorriso a se compartilhar.” A Núbia era isso: amor, presente, intensidade e alegria.
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