Voltemos um pouco. O filósofo Rene Girard expõe, no seu livro mais influente, que seres humanos nascem precisando de alimento e proteção. Satisfeitas essas necessidades inquestionáveis, passamos a olhar o que os outros estão desejando e fazendo, e a tendência humana é copiar. Ainda que a gente eleja uma determinada tribo para imitar, será sempre cópia.
Não sei quantos de vocês viram, mas o Brasil foi capa do jornal New York Times - e o assunto não foi a corrupção, mas a alimentação brasileira. Revistas e jornais brasileiros reproduziram a notícia, mas é preciso gritar de novo e outras vezes mais para renovar a força do eco. O jornal americano explica, desconcertantemente, como a comida industrializada está arrasando a dieta do brasileiro, viciando-o em ultraprocessados. Empresas, como a Nestlé, veem as regiões isoladas do País como campo de crescimento, a tríade de ouro da Nestlé é hoje a América Latina, Gana e a Índia. O hemisfério Norte partiu em ataque, as vendas não vão bem por lá.
Retrato desolador é ver as canoas, outrora lotada de peixes e pescadores magros e saudáveis, serem substituídas por Neston, Farinha Láctea, Nescau e bolachas recheadas, além de vendedoras gordas e diabéticas fazendo vendas porta a porta. Sim, é essa a maneira que a Nestlé encontrou para chegar até aqueles que não têm acesso a supermercados. Pior, os produtos chegam imantadas no engano de serem nutritivos e substitutos da comida de verdade. Chandelle de paçoca, Kit Kat e Mucilon são os objetos de desejo desses brasileiros, carentes de tudo. Uma vendedora e consumidora dá entrevista ao repórter americano dizendo que a Nestlé é ótima, cheia de vitaminas, só não compram mais porque é cara. Declara isso, não obstante saiba que seus mais de 100 quilos, a diabetes da filha de 17 anos e a gangrena que matou seu pai estejam relacionadas a dieta açucarada da Nestlé.
O professor da USP Carlos Manoel, um dos formuladores do Guia Alimentar da População Brasileira, também colaborar do site Panelinha da Rita Lobo, faz uma comparação elucidativa. Como o mosquito é vetor da malária, a comida processada é o vetor da obesidade: são os ultraprocessados que estão produzindo cinturas inacreditavelmente grossas, cada vez mais comuns, além da epidemia de diabetes e problemas cardíacos.
O jornalista da Folha Hélio Schwartsman elogiou em tudo a matéria, mas ao final, de posse de um conta-gotas mortal, incidiu o veneno: a responsabilidade do indivíduo. Como eu gostaria de lhe dar razão! Mas não, além do vício comprovado que é o açúcar, hoje, milhares de obesos precisam de tratamento psicológico para se libertarem dele. O massacre proporcionado por empresas como a Nestlé reduz a quase zero as defesas de pessoas sem instrução.
A responsabilidade é de todos, sobretudo dos órgãos governamentais, que estão constrangidos a lidarem com o fato de que, pela primeira vez na vida, o mundo tem mais pessoas com sobrepeso do que baixo peso. E, no entanto, a desnutrição continua... Há esperança, a grandiloquência da simplicidade está ainda dentro de cada brasileiro: saladinha de tomate, alface e cebola, arroz com feijão e um refogadinho.
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