Oswaldo Porchat de Assis Pereira da Silva, professor emérito de filosofia da USP e da Unicamp, morreu aos 84 no domingo (15), Dia do Professor, atividade à qual dedicou quase quatro décadas.
Sua saúde estava debilitada desde julho, quando sofreu um AVC. Internado havia dez dias no hospital Beneficência Portuguesa, em SP, morreu em decorrência de uma pneumonia. Ele deixa a mulher, Ieda, a filha, Patrícia, e duas netas.
Guiado pela vocação de ensinar, foi dos maiores estimuladores do pensamento crítico no Brasil. Nascido em 1933, o santista tinha explícita, desde a adolescência, a vontade de transmitir conhecimentos.
Quando jovem, Porchat mergulhou no estudo do latim e dos principais pensadores religiosos, especialmente são Tomás de Aquino (1225-74).
"A experiência religiosa me proporcionou uma consciência firme e inabalável da finitude humana. O homem era pó que voltaria ao pó", escreveria anos mais tarde em "Prefácio a uma Filosofia" (1975).
Aos 19 anos, influenciado pela família, desistiu de ser professor e optou pela carreira de juiz. Mas logo deixou o direito para estudar letras clássicas na USP.
Cinco anos depois, em Paris, outra mudança brusca. Ele foi a um jantar na casa de Victor Goldschmidt (1914-81), um dos grandes historiadores da filosofia do século 20 e professor na Universidade de Rennes (França) de seu amigo de adolescência José Arthur Giannotti. O anfitrião pediu que ele traduzisse um texto de Platão. Vendo a qualidade e a rapidez dele, o professor o ajudou a mudar a bolsa de estudos.
Em poucos dias, trocou um mestrado em grego pela graduação em filosofia em Rennes. Deu ali passos cruciais para se tornar não só um dos mais notórios articuladores da expansão do ensino e da pesquisa da filosofia no Brasil mas também o principal expoente do ceticismo no país.
Diferentemente do sentido de pessimismo e de indiferença diante do mundo que a palavra "ceticismo" adquiriu para o senso comum, o pensamento questionador das "verdades" desmistifica desmandos e exageros do que ele chamava de "delírios da razão". Trata-se de afirmação do exercício sadio da racionalidade e da exploração das possibilidades oferecidas pela vida.
Em Rennes, teve contato com Gaston-Gilles Granger, mestre de lógica e epistemologia (teoria do conhecimento). E, em seu último ano na França, conheceu Ieda, aluna brasileira de psicologia.
Namoraram a distância por quase dois anos porque ele virou docente da USP. Casaram-se em 1963.
PROFESSOR
Em 1961, passou a ensinar história da filosofia antiga. Seis anos depois, defendeu na USP a tese de doutorado "A Teoria Aristotélica da Ciência". Com o país sob o regime militar, ele já havia abandonado sua orientação política conservadora, decorrente da formação religiosa familiar.
"Minha fé religiosa se perdeu porque sobrepus a tudo o primado de minha razão crítica, como um imperativo de minha racionalidade. E lembro-me bem o dia em que, só comigo mesmo, me confessei ateu", escreveu ele em seu "Prefácio a uma Filosofia".
Ele não aceitava o autoritarismo vigente nem se deixou influenciar pelo esquerdismo predominante no meio acadêmico e suas ramificações -que chamou de "dogmatismos pretensamente filosóficos e, sobretudo, dogmatismos políticos".
Em 1969, foi fazer pós-doutorado em lógica na Universidade da Califórnia. Ao voltar, não se deu conta dos delírios ideológicos que enfrentaria de professores, alunos e da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
Em 1975, sob a pecha indevida de simpatizante do imperialismo americano, aceitou o convite de Zeferino Vaz (1908-81), reitor da Unicamp, e fundou o Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, que se tornaria o principal núcleo de pesquisa e pós-graduação em filosofia da ciência no país.
Porchat aposentou-se em 1985. Mais amadurecida, a USP o convidou para retornar, e ele aceitou. Em 2002, recebeu o título de professor emérito. Em 2011, a Unicamp lhe concedeu a mesma distinção.
DEBATES
A partir de sua aula inaugural em 1968, que tomou forma no ensaio "O Conflito das Filosofias", seguiu-se um rico debate provocado por contestações do amigo e colega Bento Prado Júnior (1937-2007).
Já em 1975, entre suas várias objeções relatadas no ensaio "A Filosofia e a Visão Comum do Mundo", Bento disse que a racionalidade e o questionamento radical de Porchat o levariam a uma oscilação sem satisfação entre uma posição dogmática centrada na lógica e o ceticismo.
Após resistir por quase duas décadas à ideia do ceticismo, em 1986, após muitos debates, estudos e colaborações de alunos e colegas, estabeleceu as bases do que chamou de neopirronismo.
O nome é uma referência ao filósofo grego Pirro de Élis (a.C. 365-275 a.C.), cujo pensamento foi preservado seis séculos depois pelos escritos de Sexto Empírico (160-210).
O neopirronismo não endossa crenças dogmáticas da filosofia em geral ou as do senso comum. Ao negar certezas absolutas, suspende o juízo e escolhe a vida comum, buscando a imperturbabilidade da alma. Em vez de dar à razão dogmática o primado sobre a vida comum, o cético busca viver de modo aparentemente igual a todos.
O olhar compenetrado e admirado em qualquer diálogo, com qualquer pessoa, sempre foi uma característica pessoal marcante de Porchat. Sua atitude cotidiana nunca foi, no entanto, de passividade ou indiferença diante do mundo.
Comunicativo e atuante, sempre conseguiu compatibilizar sua postura filosófica com a ação, voltada principalmente para a ampliação e a melhoria da qualidade do ensino e da pesquisa.
Seu pensamento não só é compreensível para muitas pessoas não especializadas em filosofia como também faz sentido para a vida delas.
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