Neste domingo, 15 de outubro, Dia do Professor, o Comércio conversou com um educador para saber quais são os maiores desafios e problemas que ele encontra na profissão. Com uma frase do pedagogo suíço Johann Heinrich Pestalozzi “O amor é o eterno fundamento da educação”, o francano Ricardo Castanheira, de 46, explica o motivo de ter escolhido uma das profissões mais antigas do mundo e, na sua opinião, uma das mais desvalorizadas.
Na rede pública de Franca há quase duas décadas, o professor Castanheira, que desde 1994 ensina português e inglês em escolas de Franca e região, para o ensino Fundamental, Médio e o EJA (Educação de Jovens e Adultos) e Superior, atualmente é diretor da Divisão de Cadastro e Tecnologia da Secretaria de Educação de Franca. Ele aponta como fundamental para o desenvolvimento da educação o envolvimento das famílias no processo educacional e também, por parte dos professores, a aceitação do poder das novas tecnologias.
Formado em letras pela Unifran (Universidade de Franca), em 1994; pós graduado em Língua Inglesa pela mesma universidade e qualificado pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, com o Celta (Certificado em Ensino de Inglês para Oradores de Outros Idiomas), Castanheira deu aulas, além da rede municipal de Franca, na rede particular da cidade; na FFCL (Faculdade de Filosofia Ciências e Letras) de Ituverava; Centro Universitário Claretiano de Batatais, e também tem uma escola particular de idiomas em Franca. Único professor da família, o educador afirma que o desejo de ensinar os outros nasceu quando ele tinha 11 anos, na primeira vez que assistiu, na televisão de casa, um programa em que um dos entrevistados falavam outra língua. “Desde então nunca pensei em outra opção de trabalho”, disse.
Por que decidiu ser professor?
Descobri com 11 anos de idade o inglês. Vi pela televisão um pessoal conversando em outra língua e perguntei o que era para a minha mãe. Desde então sabia o que queria fazer: ensinar línguas. Comecei estudando inglês com 12 anos, depois cursei faculdade e, no primeiro ano de curso, já lecionava. Sempre tive essa paixão de ensinar. Trabalho tanto com o inglês como o português e desde que comecei nunca mais saí da minha área de atuação. Sou apaixonado pelo que faço e hoje, trabalho diretamente com o EJA, que é formado por pessoas que muitas vezes não tiveram a oportunidade de estudar em determinado momento, é muito gratificante.
Você atua há mais de 20 anos como professor. Que diferenças vê entre as escolas daquela época e de agora?
No passado, o ensino tinha muito conteúdo e teoria, hoje enxergo ele bem mais prático. Existe também a questão das ferramentas tecnológicas, que vieram pra auxiliar muito. O professor deixou de ser o dono do saber, dividindo essa função em parte também com o aluno, pois ele traz uma bagagem maior para a sala de aula. E é fundamental que ele entenda isso. Por exemplo, o trabalho que eu desenvolvo em uma sala do Ensino Médio do período da manhã é diferente daquele que exercerei no período noturno. Enquanto o aluno da manhã estará descansado, o da noite, normalmente trabalhou durante todo o dia e chega cansado, tem outros tipos de responsabilidades. Antigamente trabalhávamos muito conteúdo e hoje o contexto é o fator principal. Já quando falamos nas condições e na qualidade de ensino eu vejo uma melhora, mas que temos muito a evoluir ainda.
Como é o desafio de dar aulas para essa geração da internet? É possível controlar o acesso dos celulares nas salas de aula ou usar isso de forma positiva?
Primeiramente o professor deve entender que hoje ele é apenas uma parte do veículo no processo de educação. Antigamente, no sistema comportamental meio egoísta, você era o dono do processo. E isso não é mais possível. O professor não é dono exclusivo do saber e é preciso aceitar isso. Ele é uma parte disso e vai dividir esse conhecimento com youtubers, facebookers, nos grupos de WhatsApp, esse trabalho de tecnologia é muito bacana e os professores precisam abrir mais a mente e usar as ferramentas da internet, a tecnologia a seu favor. Temos professores que ainda são resistentes à modernização. O educador precisa ser aberto a essa nova realidade, pois a tecnologia veio pra ficar e pode tornar a aula muito mais dinâmica. Por exemplo, nem todos os alunos têm a oportunidade de visitar o museu do Louvre em Paris, na França, mas isso é possível via internet. Em uma aula de arte, o professor pode transportar o seu aluno para esse ambiente com a tecnologia e isso é apenas um exemplo de tantos outros possíveis. A informação circula muito rápido, a gente precisa estar conectado com isso e sempre nos colocando no papel do mediador, aquele que está ali para orientar.
Os professores apontam constantemente a falta de envolvimento das famílias na educação dos filhos. Você também observa essa situação?
Sim. Muitos pais deixaram a responsabilidade de educar os filhos para o professor enquanto educador e são coisas completamente diferentes. O meu trabalho como professor é trabalhar com os alunos conteúdo e contexto, mas a atitude cabe muito aos pais e eles precisar ter essa parceria com a escola e os professores. E eles deixam muitas vezes essa responsabilidade de lado. É preciso acompanhar os filhos, na escola, nas redes sociais, em todos os âmbitos. O pai precisa saber que ele tem responsabilidade e não pode se omitir nesse processo de educação. O processo de atitudes e valores deve ser trabalhado pelas famílias, em casa.
Qual a sua opinião sobre as recorrentes notícias sobre a violência e o desrespeito dos alunos para com os professores? Como combater esse tipo de situação?
É necessário a criação de uma política de convivência escolar elaborada por professores, pais, alunos e direção. É preciso criar medidas preventivas e orientativas aos estudantes que integram a rede pública de ensino. A interação entre a escola e a comunidade está inserida nas medidas preventivas de combate à violência, objetivando o projeto a realização de atividades extracurriculares envolvendo pais, alunos e o corpo técnico-pedagógico. Outra proposta de prevenção se daria através da aplicação de palestras e a inserção da cultura da não violência na grade curricular. Muitos pais repassam a responsabilidade de educar às escolas, se esquecendo de impor limites e respeito à figura do educado.
A profissão de professor é frequentemente apontada como uma das mais desvalorizadas do País. Concorda?
Com certeza, os professores não são remunerados da forma que deveriam. Antes, porém, existia uma diferença maior em relação aos salários da rede pública, tanto municipal como estadual, com a rede particular. Todos os profissionais, médico, advogado, jornalista, enfermeiro, empresário, todos algum dia já foram alunos e isso precisa ser respeitado e valorizado. Mas esse não é o único problema, é preciso ter reconhecimento com salários, mas também é preciso que os profissionais tenham material adequado, um ambiente que motive, uma equipe gestora qualificada, com professores envolvidos e engajados. O educador é um multiplicador de conhecimentos e precisa ser valorizado por isso.
Quais os maiores desafios enfrentados atualmente pelos professores?
O professor ser aberto às tecnologias na sala de aula. Elas vieram para ajudar e precisamos ser abertos à ela. É preciso haver motivação entre os professores, pois se eu não for motivado como vou motivar meus alunos? Precisamos estar em constante evolução e nos reciclando. Outra questão é a indisciplina, que também está ligada à falta de envolvimento das famílias. A profissão de professor é muito gratificante e apaixonante e é só com educação e amor que podemos mudar o meio em que vivemos.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.