Cantos da floresta


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Vanessa Maranha
ESPECIAL PARA O COMÉRCIO
 
Do canto búlgaro, passando pela sonoridade japonesa, penetrando no universo indígena. Todo viés étnico interessa à musicista francana Magda Pucci, em sua proposta de multiculturalismo musical desdobrada acadêmica e artisticamente. Criadora da banda Mawaca, - grupo que canta em cerca de vinte línguas, com 23 anos de existência e uma carreira potente, embora pouco conhecida pela grande mídia,- Magda tem olhos e ouvidos atentos à “intercessão entre cotidiano e música, entre a vida e o fazer artístico”.
 
Educadora, ela traz a Franca, no dia 17 de outubro, na Secretaria de Educação da Prefeitura, a oficina Cantos da Floresta, um curso para professores. “Essa oficina faz parte de um projeto mais amplo que conta com a publicação do livro-CD Cantos da Floresta, voltado para professores que desejem conhecer o universo sonoro musical indígena e inserir esse repertório nas escolas. Franca foi escolhida para ser a primeira cidade a receber essa oficina e depois seguiremos para outras cidades do interior de São Paulo”, conta ela.
 
Magda Pucci, que viveu na cidade até os 18 anos, é musicista arranjadora, compositora e cantora , além de pesquisadora da música de vários povos, há mais de 20 anos. Graduada em Regência pela ECA-USP, mestre em Antropologia pela PUC-SP e doutora em Performance and Creative Arts pela Universidade de Leiden, na Holanda. A proposta da oficina é estimular a reflexão sobre o universo indígena brasileiro, em toda sua diversidade cultural, a partir do repertório musical. Interessados em conhecer este trabalho, devem procurar a Secretaria de Educação de Franca.
 
Como e em que momento você encontrou em si mesma a aptidão para a música?
Em Franca, estudei no Conservatório ‘Ars Nova’ com a Lívia Franchini, Lucia Garcetti, Regina Arruda, Lisiane Neves. Nesse período também cantava no coral regido pelo Everton de Paula, também meu professor de Português no Objetivo. Lúcia me incentivou muito a sair de Franca para me aprofundar nos estudos musicais. Devo a ela esse empurrão. Entrei na USP, em Música. Toquei piano em alguns grupos, em São Paulo participei de musicais e peças de teatro, mas acabei me dedicando mesmo à música vocal que é o que mais gosto. Sou arranjadora também e já compus algumas trilhas para teatro, dança e cinema. Destaco a trilha sonora da peça Os Lusíadas, que teve produção da Ruth Escobar. 
 
O que a moveu à pesquisa da música étnica, mais especificamente, indígena?
Quando eu me formei da USP, que era mais voltada para a música erudita, sentia que precisava ampliar o que já havia estudado e queria desenvolver outras sonoridades, outras formas de fazer música. Ainda na faculdade, eu ganhei uma fita cassete do Coral das Mulheres Búlgaras e aquilo me atiçou a vontade de conhecer outros modos de cantar coletivamente. Durante muitos anos regendo corais diversos como o da FAU e de empresas, meio por acaso, uma amiga de São Paulo chegou com um material de uma holandesa com partituras dos tais corais das mulheres búlgaras, de músicas dos pigmeus africanos, cantigas japonesas e isso foi uma porta de entrada para outro universo sonoro.” 
 
O que de mais interessante você desfolhou entre os povos indígenas? 
Os cantos indígenas apresentam formas de cantar bem diferentes das que estamos acostumados, têm fonemas que não estão na nossa língua, uma nasalidade e guturalidade muito interessantes. Embora sejam consideradas “primitivas”, considero alguns exemplos musicais indígenas bem sofisticados, cheios de complexidade que extrapolam nosso conhecimento musical europeu. É preciso desconstruir e reestabelecer uma forma de lidar com essa música. Marlui Miranda foi pioneira nisso e ela me ajudou a ir a fundo nessa linha. 
 
Fale do Mawaca, palavra africana que significa “cantores que evocam o poder dos deuses através da palavra”
O Mawaca foi criado por necessidade de expandir os horizontes vocais que eu estava desenvolvendo na década de 1990. Ele é formado por um grupo vocal que canta em mais de 20 línguas e um grupo instrumental formado por acordeom, flauta, sax, violoncelo, contrabaixo, vibrafone e muitas percussões étnicas, de vários lugares. O Mawaca me propiciou experimentar muito as sonoridades das vozes femininas do mundo todo, algo que era inédito até então no Brasil (...) Mas mesmo com o ineditismo da proposta musical, estamos num nicho alternativo, não aparecemos na grande mídia, mas mesmo assim, nos apresentamos em diversos países como Alemanha, Portugal, Espanha, França, China, Grécia, Bolívia embora haja cidades do Brasil onde nunca pisamos como Porto Alegre ou Ribeirão Preto (!).  Mas já estivemos em seis estados da Amazônia em turnê com o espetáculo Rupestres Sonoros. 
 
E sobre esse projeto que apresentará em Franca?
Essa atividade para a educação musical já havia começado em 2003 quando eu escrevi o livro Outras terras, outros sons, em parceria com a educadora musical Berenice de Almeida, professora da EMIA, uma escola pública que une as quatro linguagens artísticas. Nesse livro, já tínhamos inserido algumas músicas indígenas ao lado do repertório português e africano. Depois, resolvemos investir mais na música indígena que ainda é pouco valorizada nas escolas e então escrevemos dois livros para crianças: A Floresta Canta - Uma expedição sonora por terras indígenas brasileiras (Peirópolis) e A Grande Pedra - um mito dos Ikolen-Gavião (Leya). Logo em seguida, ganhamos o patrocínio da Natura por meio de um edital do Proac -SP e pudemos desenvolver esse projeto que conta com um livro-referência acompanhado por um CD e um site que oferece atividades didáticas interdisciplinares. 

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