Há momentos em que o dicionário é imprestável.
Dominado pela perplexidade, passo os olhos cansados por suas páginas amarelecidas e confirmo atônito, vazio. Estupidamente ele me quer que dor e tristeza sejam sinônimos.
A vida ensina diferente.
Me doeu o dente, o ouvido, a fratura do pé, a lesão no joelho. Mais ainda me doeu a injustiça, a ingratidão. E como doeu o orgulho ferido.
Não foi dor, contudo, o que experimentei quando vi o antigo lavrador, ao invés de manejar a enxada, estender a mão, buscando a sobrevivência. Não, não foi dor.
Não, não é dor este manto que me envolve e me oprime nesta hora.
O dicionário é imprestável em determinados momentos. Ele não consegue registrar a névoa invisível que nasce não sei onde dentro de mim e evapora invisível pelos poros, quando minhas mãos e meus braços se abrem impotentes, incapazes de acariciar e de abraçar o ente querido e próximo. Esforço-me inutilmente para tomar para mim o seu carma.
O dicionário me é deveras imprestável.
Não defino bem, mas acho que é tristeza o que sinto agora.
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