'O amor é tão intenso quanto pelos filhos de sangue'


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Luiz: ‘O nosso momento mais feliz é sempre que chega uma criança nova, uma história nova, que a gente vai ajudar’
Luiz: ‘O nosso momento mais feliz é sempre que chega uma criança nova, uma história nova, que a gente vai ajudar’
Joelma Ospedal 
e Vanessa Maranha 
da redação
 
O primeiro estranhamento de quem chega à Chácara Sorriso é, sem dúvida, o silêncio que impera no local. Difícil acreditar que naquela casa moram 22 pessoas. Um homem, uma mulher e seus 20 filhos. Sim, você não leu errado. São 20 filhos, mesmo. O número, que chama a atenção, já foi bem maior. O casal Luiz Carlos Ferreira, 66, e Conceição Aparecida Ferreira, 64, já chegou a criar, de uma só vez, 78 filhos. Ao longo dos mais de 30 anos em que abraçaram a missão de serem pai e mãe de crianças e adolescentes em situação de risco, eles já cuidaram temporariamente ou criaram por uma vida inteira um total de 480 filhos. São crianças retiradas judicialmente de suas famílias de origem, todas com registros dramáticos para a sua pouca idade; entre elas, algumas portadoras de necessidades especiais, outras comprometidas afetiva e/ou cognitivamente, a maioria vítima negligência, maus tratos e abusos.
 
A Chácara Sorriso não é uma entidade. É um lar. “Já nos propuseram transformar nossa casa numa instituição, pois isso facilitaria o recebimento de ajuda governamental para o sustento das crianças. Mas não queremos. Aqui nós somos pai e mãe de uma família, numa instituição viraria diretoria”, diz Conceição. “Uma entidade pode prover alimento, abrigo e estudo para essas crianças. Mas elas precisam e merecem mais. Precisam de amor, de carinho, de atenção, de bronca e correção. É isso o que damos aqui”, completa o pai Luiz. 
 
Luiz conta que os principais motivos de retirada da família original são pobreza extrema, violência e criminalidade. “Todas as histórias são de sofrimento, mas as mais tristes, são as de abuso sexual, algo que nas crianças não se apaga totalmente, fica como uma marca terrível pela vida toda. A gente senta, conversa, dá carinho e elas vão se abrindo, vão melhorando. Mas nunca ficam inteiramente bem”, diz ele, enquanto leva a mão ao rosto e, discretamente, enxuga os olhos. 
 
Pais biológicos de 3 filhos já adultos, eles chamam de filhos e são chamados de pai e mãe por cada um daqueles que com eles vivem ou viveram. Dessa imensa família, já contabilizam 38 netos. Iniciaram-se nesse caminho como a primeira Família de Apoio em Franca, em sua própria casa, sem auxílio externo, somente com os proventos da oficina de funilaria que Luiz possuía. A família foi crescendo, as necessidades aumentando e ganhando visibilidade na cidade. Há 18 anos, estão instalados numa área de 7 mil metros quadrados, doada pela italiana Zia Lia, amiga de uma irmã de Conceição que vive em Roma e que, em visita a Franca, encantou-se pelo trabalho do casal. Doações e ações comunitárias propiciaram a construção das instalações simples, mas amplas, com uma bonita capela de traço Modernista à vista da entrada da Chácara, que tem por santa padroeira a Nossa Senhora do Sorriso, um lugar envolto por grandes árvores e quase uma centena de espécies de plantas, além de viveiros de coelhos, porquinhos da Índia, maritacas, calopsitas. 
 
Sobrevivendo do apoio daqueles que o casal qualifica como “anjos da guarda”, sublinhe-se, sem qualquer auxílio do poder público, a instituição foi recentemente inscrita em CNPJ como Associação Chácara Sorriso, uma forma de agilizar recebimento de doações oriundas da iniciativa privada. Em termos de pessoal, conta somente com o trabalho do próprio casal fundador, de uma cozinheira no horário do almoço, uma lavadeira de roupas, de uma nora para serviços burocráticos e a distribuição de tarefas domésticas entre todos, inclusive com o propósito educativo. “Aqui é um lugar de afeto onde se convive e se ensina, se corrige, enfim, família mesmo. O dia a dia aqui é o mesmo de uma casa de família, o que muda é a quantidade de pessoas. Cada um tem as suas responsabilidades e deveres, conforme todas as famílias”, explica Luiz. 
 
De acordo com o casal, a Chácara Sorriso oferece alimentação, educação, assistência médica, odontológica, farmacológica, atendimento psicológico, cursos de matemática, balé, natação; escola de futebol para meninos que demonstrem aptidão no esporte. “Corremos atrás de tudo o que eles precisam. Se tem na prefeitura - como o balé - fazemos uso. Se não tem, pagamos”, disse Conceição. “Um dos meninos que viveu conosco é hoje, aos 19 anos, jogador de futebol na Sérvia. Eu corria com ele para tudo quanto é lugar para ele jogar, porque achava que ele tinha talento para o futebol. E deu certo. Ele veio de uma família com 5 irmãos. Acolhemos os 5, para que não se espalhassem. Dois deles quiseram retornar para a mãe e outros três ficaram conosco por determinação judicial. Continuamos sendo seus pais e a sua mãe biológica continua sendo sua mãe”, conta Conceição. 
 
Filhos de 8 a 50 anos têm rotina afetiva e rigorosa
A Chácara Sorriso chegou a ter 78 filhos adotivos dividindo o mesmo espaço, numa rotina afetiva e rigorosa, com atribuições apropriadas a cada faixa etária e espírito de comunidade. Atualmente, mantêm uma média de 20 filhos, alguns, jovens adultos portadores de necessidades especiais, portanto, com dificuldades de autonomia. O mais velho, com 50 anos, é portador de síndrome severa e incapacitante e vive com a família desde 1985. A menina mais nova, o xodó da família, tem 8 anos. Os encaminhamentos vêm do Conselho Tutelar e do Fórum. Não atendem dependência química. 
 
Não há um limite para que o filho deixe a casa. “A casa é de nossos filhos por quanto tempo desejarem permanecer, apenas com a condição de que os que atinjam a idade adulta tenham um trabalho e colaborem com uma parcela do seu salário para a manutenção do espaço. Como seria o normal em qualquer família”, disse a mãe. O casal conta que a maior parte dessas crianças cresceu, saiu de casa e ganhou o mundo, mas são todos filhos que retornam sempre em visita aos pais, trazendo-lhes já 38 netos. Dos filhos biológicos, o mais velho palmilha o mesmo caminho: já adotou 5 crianças.
 
“Somos família. Muitas vezes estou em Franca e ouço algum adulto me gritar de longe ‘Pai!’ Quando olho, é um dos meus filhos. Não podemos mais ter muitas crianças aqui, porque chegou o tempo em que precisamos nos cuidar mais, já não somos jovens. Se não nos cuidarmos, não teremos como cuidar dos meninos. Se tivéssemos mais força e suporte de pessoal, sim, poderíamos atender mais crianças. Mas como a maior parte das responsabilidades está mesmo em nós dois, precisamos estar fortes”, comenta Luiz.

‘O amor por eles é tão intenso quanto pelos filhos de sangue’
Para Conceição, de conversa simples, mas assertiva, fica claro que doar-se ao outro dessa forma vem na mesma etimologia da palavra dom. Reconhece, contudo, que a sua própria história de vida, marcada por desestruturação familiar, privações, fome, talvez tenha sido importante para direcioná-la a um movimento altruístico, compassivo e acolhedor. Ela conta que desde que ela e Luiz eram noivos, guardavam já um projeto de assistência a pessoas carentes e/ou em situação de abandono. “Mas, nesse tempo, pensávamos em cuidar de idosos. Tanto que Luiz morava em Barretos e quando vinha, a cada 15 dias me ver, buscávamos as senhorinhas do Asilo São Vicente para passearem conosco na praça”, conta, divertindo-se ao reconhecer a raridade nisso. 
 
Orientados por valores católicos, os pais são firmes quanto a princípios e comportamento. “Só podem namorar depois de 17 anos e fora daqui. Neste local, são criados como irmãos, mas se acaso se reencontrarem posteriormente fora daqui, já estão adultos e podem fazer suas escolhas por si mesmos. Não podemos ser muito abertos em relação a isso, para não perdermos o controle da situação”, explica Luiz.
 
Na complexidade das relações humanas, houve momentos dramáticos de falta de recursos, momentos de rebelião juvenil às regras, críticas e olhares enviesados vindos de fora, uma vez que a distância entre o que se vê e o que se interpreta, pode ser abismal. Luiz fala de uma situação de denúncia por suposta exploração infantil. “Havia madeira no terreno ao lado, num tempo em que não tínhamos energia elétrica e aquecíamos a água para os banhos numa caldeira. O dono desse terreno nos doou essa madeira para servir de lenha, a condição era que nós mesmos deveríamos trazê-la. Chamei alguns dos nossos meninos, com mais de 13 anos, e pedi que me ajudassem a carregá-la. Algumas pessoas viram esse movimento e pararam os carros para fotografar. Duas semanas depois, recebemos intimações do Conselho Tutelar e do Fórum para responder à acusação de abuso de autoridade. Mas tudo foi esclarecido. Não há exploração nenhuma de trabalho, não produzimos nada que não seja para o consumo de todos”, lembra ele.
 
“Nunca fiquei com raiva deles. Posso ficar chateado em algum momento por determinado comportamento, mas depois passa. Tenho muita pena das circunstâncias em que as crianças chegam aqui e entendo as dificuldades de adaptação que elas têm. A nossa ligação com eles é algo incrível, nós não nos esquecemos deles. É amor tão intenso quanto o que temos pelos filhos biológicos, um amor que se preocupa, que perdoa. Aqui não existe ‘nós dois’, existe ‘nós todos’. Agradecemos a chegada desses meninos, é sempre muito intenso recebê-los. Ficamos tocados em ver crianças com tantas necessidades e nos sentimos gratificados em poder ajudá-los, que finaliza: “Às vezes me pergunto ‘porque eu, senhor, fui escolhido para estar com todas essas crianças? Em meio a tanta gente no mundo, por que sou eu quem estou aqui? Mas até hoje, não tenho resposta. E acho que nucan vou ter”.
 
 
Chácara Sorriso: fora da curva estatística
Levantamento recente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) apontou, em todo o Brasil, cerca de 20 mil crianças e adolescentes vivendo em 589 instituições de abrigo e apoio aos que estão em situação de risco, recebendo recursos do Governo Federal para a sua sobrevivência. Cerca da metade localiza-se na região Sudeste (49,1%), dos quais, mais de um terço dos abrigos  estão em São Paulo (34,1%).    
 
Entre várias outras questões, o relatório conclui que o atendimento massificado a crianças nos abrigo, sem a delineação de uma estrutura domiciliar propriamente dita, tem revelado outros custos para essa população: carência afetiva, dificuldade para estabelecer vínculos, baixa auto-estima, atrasos no desenvolvimento psicomotor e pouca familiaridade com rotinas familiares. “Esses aspectos, se vivenciados por longos períodos, representam uma violação de direitos e deixam marcas irreversíveis na vida dessas crianças, que não adquirem sentimento de ‘pertencimento’ e enfrentam dificuldades para convívio em família e na comunidade”, diz o texto do relatório.
 
No âmbito formal, a Chácara Sorriso está entre os abrigos fora da curva estatística das instituições beneficiadas pelo Governo Federal. Fica invisível nos números oficiais que poderiam legitimá-la como modelo daquilo que seus estudos apontam como mais próximo do atendimento ideal. Em sua atuação, cumpre os requisitos da convivência humanizada, afetiva e de respaldo familiar propostos pelo mesmo Poder que, no entanto, não a viabiliza financeiramente: sobrevive de recursos da iniciativa privada e comunitária no princípio fundamental de prover às crianças o que as circunstâncias lhes retiraram: um pai, uma mãe, uma constelação familiar. 
 
Trocando em miúdos, o próprio governo reconhece que a acolhida por estrutura meramente institucional para atender crianças afastadas da família não supre o investimento humano que situações muito delicadas vivenciadas emocionalmente por essa população pedem. Entretanto, a máquina burocrática opera em negativo, favorecendo apenas abrigos de estatuto institucional, o oposto daquilo que os seus estudos apregoam. Mais uma das inúmeras contradições deste país. 
 
A Chácara Sorriso necessita de todo tipo de ajuda. Para doações, entre em contato pelo telefone (16) 98179-7778.

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