A indecência real do nosso Brasil


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MAIS INDECENTES DO QUE HOMEM NU NO MUSEU SÃO AS MAZELAS QUE VIVEMOS NO COTIDIANO
Nas últimas semanas, chamaram a atenção dois fatos ligados à arte que ocorreram em nosso País. Primeiro, a pressão de grupos inconformados causou o cancelamento de uma exposição de arte por causa de duas obras, as quais, alegavam, faziam apologia à pedofilia e a perversões sexuais. Como consequência, a mostra, denominada “Queermuseu”, foi impedida de ser exibida no MAR (Museu de Arte do Rio) pelo prefeito Marcelo Crivella (PRB). Além disso, outro debate raivoso (contra e a favor) ocorreu por causa de uma performance, desta vez no MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo, onde um homem nu teve o corpo tocado por uma menina de aparentemente cinco ou seis anos. A performance foi taxada de indecência, estímulo à pedofilia e com outros adjetivos mais pesados.
 
Aqui, não entramos no mérito da questão sobre a qualidade e os “perigos” dos dois fatos para mentes jovens. O que pretendemos é discutir outras questões que passam ao largo dos “indignados” que se insurgem contra as exposições. No início da semana, órgãos de mídia de todo o País noticiaram que um garoto de 13 anos foi encontrado dentro de uma cela em presídio do Piauí, escondido debaixo da cama de um estuprador. Não se viu qualquer manifestação, ainda mais quando se sabe que o garoto havia sido deixado ali pelos próprios pais (que, a propósito, podem perder a guarda do filho). Este sim é uma indecência num País onde, há alguns anos, uma garota de 15 anos ficou presa vários dias em uma cela, com uma dezena de detentos, e foi abusada por todos eles. Indecente também, não? E a morte de um bebê baleado no útero da mãe? E a dentista queimada viva por marginais (um deles menor de idade) por não ter dinheiro? Se formos perfilar aqui caso por caso que expõem a indecência no Brasil uma só edição do Comércio não seria suficiente.
 
O pior vem na política. Ninguém se insurge contra a roubalheira disseminada nos quatro últimos governos e a distribuição a granel de propinas a políticos e administradores públicos. E muito menos com o sofrimento de dezenas de milhares de brasileiros, diariamente, por falta de um atendimento médico satisfatório pois os esquemas de corrupção desviam o dinheiro que deveria estar indo para o setor. A indecência está nas reuniões na calada da noite para se combinar esquemas fraudulentos ou nos gabinetes do poder para combinar votos em troca de cargos e liberação de verbas. A vergonha está ainda num País onde a desigualdade vem aumentando e até programas sociais, como o Bolsa Família, servem a esquemas de desvio de dinheiro. Um homem nu ou uma obra pornográfica não são capazes de prejudicar o País. Mas a corrupção sem medidas nos mantêm no limbo. Pobres de nós!

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