Tu que corres contra a dor do amor,
Terás tua dor maior,
Quanto mais longe for.
Tu que corres água corrente,
Água que foge da nascente.
Tu que jorras chamas e calafrios,
Moves ventos e moinhos.
Tu que corres ligeira,
Contigo a terra semeia.
Se de fasto és ribeira,
Do alto és ribanceira.
Que se abram as trincheiras do deserto,
As matas altas, as mantiqueiras,
A terra craquelada, as marchas estradeiras.
Abunde, afunde água corrente,
Socorre seu filho doente,
Socorre, corre do inimigo,
Avance, avante o desafio.
Corre, não tenha medo,
Esqueça o desassossego.
Corre sobre o trilho,
Corre, ouça o assobio.
Correm moços e donzelas,
Correm cochos e sentinelas,
Correm homens e princesas,
Correm as vísceras da marquesa.
Correm cantos e canções,
Morrem flores e paixões.
Correm os ricos passarinheiros,
Morrem os pobres mosqueteiros.
Corre correnteza,
Mexe, revoa o que é fraqueza,
Sacode a esperança do leito,
Renova a força da margem,
Empina as ondas da vida,
Acorda esta terra adormecida.
Chega farta, não cochila,
Deságua, não falha,
Amolece o hermético coração,
Daquele que corre contra a dor do amor,
Daquele que finge que nada sente,
Daquele que nada contra a corrente.
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