Mais mansamente que a brisa, meu barco desliza sobre azul. O leme e a agulha imantada dormem. Com mãos maternas, a quilha abre sulcos, busca o horizonte verde que sei.
De repente, muito acima do sol, anjos se desentendem. A paz vai-se contaminando de Terra. O estoque de flechas de cupido logo se esgota. Então, os anjos guerreiam, atirando-se mutuamente nuvens macias e densas, quentes e frias. As nuvens serenas se atritam, choram lágrimas, raios e estrondos. O dia fica noite. Uma faísca fere a proa, e fere o tombadilho, e fere o leme, e fere a popa, e a bússola desaparece em meio ao caos.
E, de sob meus pés, o solo se esvai.
Durante dias, meses e anos, sou náufrago, os braços debatendo, procurando, as mãos buscando qualquer ponto cardeal.
Os olhos molhados tateiam algo escuro.
A lâmina afiada do arrecife remete a mão à boca. O líquido viscoso e quente irriga a secura que anunciava o fim.
Sei o gosto da salvação.
Começo a subir a escarpa.
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