Iara Biderman
FolhaPress
A acrobata californiana Haley Viloria, 26, já viveu em trailers, barracas e treinou na lama atrás de picadeiros de circos tradicionais. Hoje, diz, tem uma vida de luxo.
Ela é uma dos 46 artistas da turnê de "Amaluna", do Cirque du Soleil, que estreia a temporada brasileira nesta quinta (5), em São Paulo. O luxo tem a ver com a estrutura grandiosa que o Soleil atingiu. Do início das atividades, em 1984, em Montreal, no Canadá, com 73 pessoas, aos 4.000 empregados atuais, a companhia está mais próxima dos padrões de uma empresa multinacional do que dos ideais românticos da vida na picadeiro.
A reportagem acompanhou os bastidores desse circo-empresa quando a trupe do "Amaluna" estava acampada em Assunção, no Paraguai, no último mês de junho.
Acampada é modo de dizer. As equipes ficam em hotéis em todas as cidades onde se apresentam. "Acordo cedo, tomo café no hotel e malho. Depois, vou para a tenda", diz Viloria, workaholic declarada, como a maioria dos funcionários abordados pela reportagem.
A vida no circo começa por volta das 14h. Nessa hora, o maior movimento na tenda artística é o das máquinas de lavar roupa, e o único lugar a pleno vapor é a cozinha. Ali, o holandês Pim Walkin comanda dois chefs e uma dezena de auxiliares recrutados no Paraguai para preparar as mais de 200 refeições diárias servidas no bufê.
Walkin, 46, começou como chef aos 18, em Amsterdã. Há 16 anos, quando o circo passou por sua cidade, candidatou-se a uma vaga. "Era o que eu queria na vida, viajar pelo mundo e trabalhar na cozinha", diz ele, que também tem como paixão fazer discotecagem.
DJ oficial das festas da trupe, durante as turnês Walkin tenta entender a cena musical de cada cidade que visita. O chef conheceu a atual mulher, Mariana, na pista de um pequeno clube no Rio. Estão juntos há seis anos e, há cinco, Mariana trabalha na parte administrativa do circo.
Sua primeira mulher, uma chilena, também trabalhava no Soleil. Eles se encontraram em uma turnê, como muitos casais do elenco.
Além de encontros e novidades, as viagens dão a Walkin chance de estudar as tradições culinárias de cada local por onde passa a turnê. Em Assunção, conheceu a sopa paraguaia, uma espécie de bolo salgado a base de milho.
Quando o movimento do restaurante aumenta, por volta das 15h, os "réchauds" com sopa paraguaia, carnes, massa e vegetais começam a ser repostos. Há opções para os vários tipos de dieta seguidas pelos artistas, que fazem em média seis refeições por dia.
Quase metade do elenco é de ginastas que competiam, muitos deles ex-atletas olímpicos. É o caso do mineiro Gabriel Machado, 30, ex-membro da seleção brasileira de ginástica de trampolim.
Ele competia no Canadá quando foi abordado por um "olheiro" -prática da empresa para garantir o volumoso banco de currículos guardados na sede, em Montreal.
Machado fala com a reportagem enquanto espera ser atendido pelo fisioterapeuta. O atleta-artista sofreu pequena lesão no treino e não poderá saltar no espetáculo da noite.
No meio da tarde, a tenda já está toda ocupada por artistas treinando. Ouvem-se diferentes línguas, apesar de o idioma oficial ser o inglês. Cerca de duas horas e meia antes do espetáculo, começa a transformação do elenco. Acrobatas russos enormes passam com toalhas de banho enroladas na cintura. Na sala de figurino, Viloria começa a se maquiar, enquanto costureiras fazem os arremates finais nas roupas.
Por fim, o elenco veste as fantasias e não dá mais para reconhecer a garota de legging no visual guerreira-roqueira, ou o cara de bermudas transformado em lagarto. "Amaluna" vai começar.

Acrobacia em 'Amaluna' une Shakespeare e feminismo
"Amaluna" marca o retorno do Cirque du Soleil ao Brasil após quatro anos, quando a companhia apresentou por aqui "Corteo".
O espetáculo, que já passou por dez países, estreou em 2012. Naquela época, a companhia, famosa por gastos e bilheterias milionários, passava por uma crise de faturamento.
O momento crítico foi enfrentado com soluções de mercado: diversificação de produtos, como produção de eventos e fornecimento de ingressos para uma administradora de arenas, e venda de participação na empresa para um fundo de investimentos privado.Mas a criação artística também se envolveu na recuperação do prestígio e dos lucros da empresa.
Buscar um tema que falasse mais ao público de seu tempo parece ter sido um norte para os criadores do espetáculo, divulgado como "um tributo ao trabalho e à voz das mulheres".
A maioria do elenco é formada por mulheres, incluindo a banda feminina de rock. O título é uma fusão das palavras "Ama", referência à mãe em várias línguas, e "Luna", a lua, um dos símbolos da feminilidade.
A estrutura do espetáculo é bastante narrativa, com uma história quase linear amarrando os rodopios aéreos e saltos mortais. O enredo é livremente inspirado na peça "A Tempestade", de William Shakespeare. No texto original, do século 17, a trama se desenrola em uma ilha onde vivem Próspero, duque de Milão, e sua filha, Miranda.
Na versão do circo, a ilha é governada por Próspera e por um séquito de deusas que acompanham a jornada de Miranda na busca do verdadeiro amor, Romeo, nome de um personagem de outra peça de Shakespeare. Em "A Tempestade", o par romântico de Miranda é Ferdinando, filho do rei de Napóles.
As referências se misturam como em um desfile de escola de samba, em que acontecimentos históricos, por exemplo, servem mais de pretexto para a decoração dos carros alegóricos e para a exuberância das fantasias.
Em "Amaluna", cenários, figurinos e luzes são mesmo exuberantes, mas o grande pretexto da narrativa é conduzir os famosos números acrobáticos entremeados pelos palhaços de classe luxo do Cirque du Soleil.
AMALUNA
Quando: de 5/10 a 17/12 (São Paulo) e 28/12 a 21/1/2018 (Rio)
Onde: Parque Villa Lobos, av. professor Fonseca Rodrigues, 2001 (SP) e Parque Olímpico (av. Embaixador Abelardo Bueno, s/n (Rio)
Quanto: de R$ 250 a R$ 450
Classificação: livre

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