O ano era 1671, muito longe, portanto, da era de comunicação industrial e histeria narcísica em que vivemos.Mesmo assim, alguém se matou cinematograficamente porque não suportou ter a reputação arruinada. A história é epistolar. Madame Sevigné deixou registrado que,às quatro horas da manhã, François Vatel,abalado e devastado pelo cansaço de 12 dias sem dormir, subiu para seu quarto, calçou firmemente uma espada na porta e se jogou sobre ela, cravando-lhe o peito e fazendo-lhe gemer por horas. Todo esse drama porque parte do carregamento de peixes e frutos do mar, supôs, não chegaria a tempo para mais um dia de banquete para o rei Luís XIV.
Em 2003, o chef Bernard Loiseau se matou com um tiro de rifle na cabeça antes que se confirmasse a notícia de que seu restaurante Côte D’or perderia uma das três estrelas do Guia Michelin, um outro guia crítico já havia lhe rebaixado a nota. Ao encontrá-lo morto, a esposa soube,chegara ao fim a angústia de anos do marido pela perfeição e inadmissão do humano. Loiseau, querido e admirado, levou à ira todos os chefs franceses acostumados às benesses e dores de conviver com a exígua constelação do guia Michelin. Paul Bocuse, irreverente, disse que críticos gastronômicos são como eunucos, eles sabem, mas não podem.
Mas nenhum chef francês tinha feito nada, até que Sebastien Brás fez um movimento desconcertante, ele próprio detentor das três estrelas enviou um comunicado ao guia pedindo a retirada da classificação de seu restaurante. Inicialmente parece louco, pois sua propriedade fica no meio donada na França: a cidade é muito pequena e a propriedade é constituída por um pequeno hotel e o restaurante estrelado. Brás dispensa as estrelas que foram conseguidas pelo pai, um estressadíssimo e meticuloso chef gaulês que há muitos anos deixou Paris para se instalar na área rural de L’Aubac. Há dez anos, o filho é responsável por manter em dia o brilho dessas estrelas e o tem feito muito bem. Mas está cansado da pressão de agradar críticos, quer se sentir relaxado e agradar somente a si e quem come. Ele diz, e seacredita,que não se trata de baixar o nível do restaurante, mas de seguir uma originalidade que não está relacionada ao padrão da alta gastronomia ou da mídia.
A atitude do chef não é inédita, outros dois chefs italianos também já varreram as tão sonhadas estrelas. Aliás, chego a acreditar que o colunista da Folha João Pereira Coutinho,que fez crônica sobre o assunto, esteja com razão: o minimalismo espiritual está na moda.
Estaríamos nós a acrisolar uma alma pura, livre dos excessos, que dispensa aplausos e regozija o ser?
Vamos esperar pelas próximas chuvas para ver como as coisas ficam...
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