Caso Núbia: uma cobertura para ficar na história


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O dia começou cedo, com a notícia de que o casal Lauany Viodres e Leonardo Cantieri, suspeito de matar a jovem Núbia Ribeiro, se entregaria às nove horas. Fomos eu e os repórteres Marcella Murari e Cássio Freire pra delegacia. Os dois chegaram pouco depois. Houve um pouco de correria, já que o advogado chegou num carro separado, e parou longe da entrada onde achávamos que chegariam. Naquele susto, já dava pra perceber que o dia não seria fácil. Depois de muita espera, fomos informados pelo advogado dos dois de que eles não haviam prestado depoimento ainda, e que, a partir das 14h00, poderíamos falar com eles.
 
Voltamos no horário marcado e começou a sessão de ansiedade. No começo parecia todo mundo tranquilo, fazíamos até algumas piadas, mas era puro nervosismo e medo de perder alguma coisa. Isso ficou evidente quando um colega jornalista fingiu que falava com alguém ao telefone e disse que tinha a informação de que o casal sairia por outro portão. Todos saíram correndo em direção ao portão que ele apontou, desesperados. Marcos, autor da pegadinha, correu um pouco, parou e voltou rindo. Agora acho que foi engraçado, mas queria “matar” ele naquela hora. Neste momento, já tinham chegado alguns populares que pediam por justiça, com muitos gritos e palavrões.
 
Às 16h30, o grupo começou a crescer e a incomodar a polícia, que pediu reforços, e começou a operação para dispersar as pessoas, com viaturas entrando e saindo por vários portões a todo momento, o que causava corre-corre e gritos de “pega” e “quebra ela”. Mais tarde descobri que esta hora foi a mais tensa pro delegado, que ficou com preocupado com a possibilidade uma invasão e tentativa de linchamento, e se preparou com munição anti-motim, e bombas de efeito moral. Depois de tudo passado, ele disse que “tinha que garantir a vida e a segurança dos acusados, justiça já estava sendo feita, eles queriam é vingança, e eu não deixaria”.
 
Às 18h00, com os populares concentrados na rua de cima (a distração estava funcionando apesar de chegar cada vez mais gente), o advogado deu uma entrevista coletiva, em que afirmou a inocência dos seus clientes. Nesta hora, o pessoal que trabalha na TV estava louco, os principais jornais iriam começar logo, e não havia consolidação, já tinham percebido que teriam que “dar a notícia” sem um desfecho. Todos estávamos muito cansados, e as garrafinhas de água que alguns tinham comprado já tinham se tornado “terra de ninguém”, quando a sede apertava, cada um pegava uma garrafa vazia no canto e pedia pra algum investigador encher - afinal também estávamos com a circulação restrita - não podíamos passar da entrada da DIG e, também, não queríamos arredar pé da porta da delegacia. 
 
O advogado pôde ser visto da rua, o que causou novo alvoroço entre as pessoas que queriam vingança. Voltaram a se concentrar na porta da DIG e a gritar ofensas e a pedir a morte de Lauany - numa indignação seletiva, que poupava o outro acusado, Leonardo. Neste momento, o delegado posicionou policiais com armas grandes (calibre 12) na porta da delegacia, e pediu a colaboração dos profissionais da imprensa. Fomos mudados de local - para uma outra sala ao lado - assim não atrapalharíamos a circulação de policiais numa emergência. Nesta hora, ele também falou brevemente conosco, dizendo que logo acabaria de tomar os depoimentos, e garantiu que nos atenderia ainda no mesmo dia, para falar sobre o caso. Isso deu uma pequena acalmada em todos, já que tínhamos a promessa de que não voltaríamos pras redações de “mãos abanando”. Informação de fonte confiável e algumas imagens já estavam garantidas, mas a cobertura ainda era um problema para alguns, afinal os jornais da noite já estavam quase entrando no ar.
 
 
Quem precisava dar boletins ao vivo - que era nosso caso, uma vez que atualizamos o noticiário do portal GCN e da rádio Difusora ao longo do dia - falava de como estava a apuração. Sabíamos que era o melhor que podia ser feito, mas era péssima a sensação de que não tínhamos ainda o desfecho. 
 
Por volta das 19h30, a movimentação de policiais civis ficou mais intensa, a PM já havia chegado e distanciado os manifestantes de pontos estratégicos (das saídas do prédio). Os suspeitos foram levados pro presídio, com uma saída rápida, que não deu chance para que houvesse grande confusão. Depois de perceber que o casal tinha ido embora, as pessoas se dispersaram rápido. Passado pouco tempo, o delegado nos atendeu, deu detalhes dos depoimentos e do trabalho da polícia para desconstruir a primeira versão dos acusados. 
 
 
Quando voltamos para a redação, já era mais de 21h00. Foi quando pudemos, finalmente, consolidar o material colhido ao longo do dia, separar as fotos, discutir as abordagens dessa cobertura difícil, de um assunto tão escabroso. E, mesmo diante disso tudo, pudemos dizer: missão cumprida.

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