“Vida. É esse o principal significado de um transplante, seja ele de que órgão for; é esse o resultado de um ato que nasce do amor, mesmo em meio a dor”. É assim que o comerciante aposentado Mauro Roberto Moreira, de 68 anos, traduz a experiência que viveu há pouco mais de três anos. Depois de quase13 anos de uso de medicamentos diversos e de três anos e meio de diálise peritonial (um dos tratamentos indicados para pacientes que têm insuficiência renal aguda ou crônica), no dia 12 de fevereiro de 2014 ele viu a esperança renascer após a família de uma jovem de 17 anos, que havia sofrido um acidente em Ribeirão Preto, autorizar a doação dos seus órgãos.
“Infelizmente, quando não encontramos um doador compatível com vida, temos que aguardar na fila e, no momento de sofrimento para uma família, é que nossa esperança pode renascer. Uma única pessoa que doa, pode salvar várias vidas. Rim, pâncreas, fígado, pulmão, córneas, coração. Só nesse caso, além de mim, os órgãos da jovem beneficiaram mais seis pessoas”, disse.
Todo paciente em morte encefálica (morte do cérebro) pode ter os órgãos doados.Após o diagnóstico, a família deve ser consultada e orientada sobre a doação de órgãos. Para ser doador não é necessário deixar nada por escrito, mas é fundamental comunicar à família o desejo da doação. Os órgãos que podem ser doados por pessoas mortas são: córnea, rim, fígado, coração, pulmão, pâncreas e fêmur. As doações seguem critérios predefinidos para a priorização de pacientes graves ou em eminência de morte.
No dia 07 de julho de 2012, no Hospital do Rim em São Paulo, o produtor musical Rodrigo Oliveira Vergara, 36 anos, recebeu um rim. Diagnosticado com diabetes tipo 1 aos 13 anos, o francano de coração, que mora na cidade desde os 6 ano, disse que não cuidou como deveria da doença, o que comprometeu seus rins. Por sorte, seu pai, Daniel Vergara, 63, era compatível e pôde lhe doar um dos rins. “Tive a sorte de não precisar fazer hemodiálise nem diálise e, em um ano, fiz o transplante. Durante a operação, encontraram um nódulo malígno no rim do meu pai e, se não fosse pela doação, ele nem teria ficado sabendo e hoje poderia não estar aqui. Então costumo dizer que salvamos a vida um do outro”, disse.
A espera
Com 39 anos e os dois rins atrofiados após uma nefrite, o trabalhador rural Edson Alves de Oliveira realiza tratamento na Santa Casa de Franca e é um dos pacientes que aguardam por um rim na fila no Estado de São Paulo. “Em 2005 fiz um transplante, mas em 2015 ele parou de funcionar. Minha mãe foi a doadora e, depois de quase dez anos, meu corpo rejeitou o órgão. Agora realizo hemodiálise três vezes por semana e aguardo uma nova doação”, disse. “É um ato muito importante, por isso apelo para as famílias que puderem, apesar do momento de dor, autorizarem a doação. Para nós ela significa a vida”, finalizou.
Muitas famílias não autorizam
Em Franca, de acordo com a Comissão Intra Hospitalar de Transplantes, que trabalha no serviço de captação de órgãos há 15 anos, 33% das famílias que poderiam doar os órgãos dos parentes ainda recusam a autorização. No Brasil essa média chega a 44%.
“A autorização da família é a única forma de doação, sem ela, mesmo que o paciente tenha manifestado a vontade de ser doador, ele não será atendido. Por isso, realizamos campanhas de conscientização nas escolas para que sempre as pessoas deixem seus familiares saberem de suas vontades”, disse a assistente social Márcia Floro da Silva, da Comissão.
Até junho deste ano 15.162 pessoas esperavam no estado de São Paulo por um transplante. Os órgãos mais esperados são rins, seguido de córnea, fígado, pâncreas/rim, coração, pulmão e pâncreas.
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