Não me lembro se foi uma necessidade especial ou uma lufada de independência que fez minha mãe procurar emprego - e encontrá-lo. Só sei que foi um desastre. Depois de uma negociação tensa entre meu pai e ela, combinaram que ela honraria a palavra empenhada, voltaria antes do fim do dia e não retornaria mais ao trabalho.
Imagino que na primeira hora daquele dia seu pensamento tenha sido todo do meu pai, mas a gente sabe como é, o trabalho trai nossas preocupações. E ela se viu abrigada pela simplicidade da vassoura que varria, do rodo que secava, do pano que deixava um rastro de limpeza em meio a poeira. Como não se deixar purificar pela limpeza que ela própria produzia? Na ação, nenhuma novidade: era a mesma da casa dela. Mas o efeito era outro, parecia que cada peça liberta da sujeira lhe agradecia com mesuras - ela sempre desconfiara da falta de educação de seu mobiliário miserável. Haviam as pratas, o brilho no chão, a laca dos móveis, mais parecia um palco. Tinha também o silêncio, ela não se lembrava de ter passado tanto tempo longe dos filhos, que individualmente eram bonzinhos, mas juntos produziam incêndios em série saídos das fricções verbais e físicas naturais da infância. Ela só poderia estar louca, porque se sentia em férias e descansada naquela casa, cuja faxina semanal estava a seu cargo. Deu a hora do almoço, ela se ajeitou num canto, a comida era boa e à vontade. E mentalmente repetiu a frase que a fez célebre: “Qualquer comida é boa se não fui eu que fiz”.
Sei que vi naquele dia o sol se pôr com grande amargura. Os últimos raios se agarraram a custo na borda do mundo, porque sabiam que enquanto uma unha de claridade se mostrasse minha mãe não estaria atrasada. Não adiantou porque o sol rolou levando seus tentáculos inconformados, e quando minha mãe chegou em casa era noite fechada e, como eu já disse, foi um desastre.
Passaram-se quase 30 anos para que minha mãe tivesse o desvario de novamente trabalhar mediante paga. Achei que estávamos fazendo um favor a ela, dei-lhe uma tarefa esperando o cumprimento da metade, ela me pediu duas daquela.
Sei que hoje ela dá e recebe como qualquer outro funcionário do restaurante. Sem deixar a mansidão de mãe, cativa meu pensamento na elucidação do mistério – onde esteve essa mulher por tanto tempo escondida de mim?
Ser alguma coisa, para mim, era ser a filha do meu pai, devido a sua masculinidade onipotente. Hoje, percebo que o patrimônio emocional da minha vida não acabou.
O legal disso tudo é que estamos todos bem. Inclusive, a elegante senhora que há tantos anos empregou minha mãe é fiel cliente do restaurante.
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