DEZENAS DE MILHARES SE MATAM POR ANO NO BRASIL: DOENÇAS CRôNICAS ESTIMULAM ATO
Há assuntos que, popularmente, são considerados tabus. Foi com o câncer, no século passado, quando muitos não admitiam nem falar alto o nome da enfermidade (era “aquela doença”). A partir do momento em que passou a ser encarado como curável, o câncer (que já foi tratado como uma sentença de morte) recebeu mais atenção e passou a ser diagnosticado precocemente, aumentando ainda mais as chances de remissão. Mais recentemente, a infecção por HIV e a Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) receberam o mesmo tratamento, ainda mais por -- erroneamente -- ser ligada ao homossexualismo. Tudo mudou a partir da discussão séria sobre a morte de milhares de pacientes e o aparecimento dos retrovirais, que permitem ao soropositivo uma vida normal.
O mesmo ocorre com os casos de suicídio, que são tratados sob sussurros e o medo de que a disseminação de notícias a respeito estimulem mais gente a optar pelo gesto extremo de acabar com a própria vida. Porém, o crescimento do número de casos ano a ano obriga a discutir a questão, envolvendo Poder Público, sociedade e autoridades médicas. Oficialmente, cerca de 11 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no Brasil, de acordo com o boletim epidemiológico divulgado ontem pelo Ministério da Saúde. Segundo o documento, entre 2011 e 2016, 62.804 pessoas tiraram suas próprias vidas no País, sendo que 79% delas são homens e 21% são mulheres. A divulgação faz parte das ações do Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção ao suicídio.
Para a diretora do Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não-Transmissíveis e Promoção da Saúde, Fátima Marinho, esse número é maior pois há uma perda de diagnóstico dos casos de suicídio. Segundo ela, nas classes sociais mais altas há um tabu sobre o tema, questões relacionadas a seguros de vida e diagnósticos feitos por médicos da família. As notificações de lesões autoprovocadas tornaram-se obrigatórias a partir de 2011 e elas seguem aumentando. Entre 2011 e 2016, foram notificadas 176.226 lesões autoprovocadas; 27,4% delas, ou seja, 48.204, foram tentativas de suicídio. Entre os fatores de risco estão transtornos mentais, como depressão, alcoolismo, esquizofrenia; questões sociodemográficas, como isolamento social; psicológicas, como perdas recentes; e condições incapacitantes, como lesões desfigurantes, dor crônica e neoplasias malignas. Mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida por ano no mundo. Por isso, em 2013, a Organização Mundial da Saúde desenvolveu um plano de ações em saúde mental que pretende reduzir em 10% da taxa de suicídio até 2020. Trazer o tema à luz é importante para provocar uma maior atenção ao ato que continua matando sem que seja encarado e discutido e as vítimas potenciais sejam identificadas, acompanhadas e tratadas.
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