Às 20h40 dessa quarta-feira, ele viu os portões da Penitenciária de Franca se abrirem e, enfim, pôde observar a rua praticamente deserta e tudo aquilo que o cercava, além das grades, pela primeira vez em quase três semanas. Com lágrimas nos olhos e os papéis em que sua soltura estava assinada, o sapateiro Maicom Vital de Assis, de 20 anos, saiu da prisão.
Ontem, conseguiu liberdade provisória depois de matar o pai, o desempregado Anderson José de Assis, de 38 anos, no Jardim Santa Bárbara. E, acompanhado de seu advogado, Adauto Casanova, falou com exclusividade ao Comércio, sobre o que aconteceu no dia 26 de agosto.
Ele reforçou o que sua mãe já havia declarado: estava cansado de vê-la apanhando e sofrendo nas mãos do pai. “Ou eu fazia isso ou ia assistir meu pai matando minha mãe. Sequer podia deixá-la sozinha em casa. Não tive outra alternativa naquele momento. Ninguém aguentava mais”, disse.
Segundo Maicom, as brigas, humilhações e agressões eram constantes na casa da família, sendo presenciadas por ele e seus irmãos mais novos, de 18 e 10 anos. “O caçula ficava desesperado quando via meu pai bêbado e drogado por conta de cocaína e crack. Todos nós vivíamos com medo, pois ele mostrava revólver e dizia que mataria todo mundo. Constantemente chamava mulheres para dentro da nossa casa e as colocava deitadas no sofá e até nas nossas camas. Teve filho com outra, e batia na minha mãe todo dia.”
Para defender a mãe, no dia do assassinato, o sapateiro contou que precisou intervir depois de uma madrugada de confusão e ameaças. “Ela foi trabalhar e ele queria fazer algo contra. Como tentei resolver, meu pai veio para cima de mim. Peguei uma faca para me proteger”, afirmou. Depois da primeira facada, o jovem disse que desferiu as outras - mais de 30 - porque ficou “cego” e “veio toda a raiva e mágoa por tudo que o pai fez a família sofrer”.
Sobre o futuro, Maicom é otimista. Quer voltar a trabalhar, cuidar da mãe e dos irmãos, e formar uma família com a namorada. “Quero ter filhos e ser para eles o pai que eu nunca tive”, disse, emocionado.
Antes disso, o sapateiro terá de acertar contas com a Justiça. Pelo menos, por enquanto, em liberdade.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.