Natael Carrijó nasceu no final da década de 1950, em Claraval, Minas Gerais, mas declara-se francano de coração. Se você costuma andar de mototaxi, é quase certo que já tenha andado na garupa de Natael, também conhecido como ‘Zero Um’, um dos mototaxistas mais antigos de Franca. Há mais de 20 anos ele percorre Franca de cabo a rabo levando e trazendo gente. Atencioso e educado, Natael é muito solicitado e faz mais de 400 corridas por mês!
Natael é, também, muito bem humorado e adora contar histórias. Conhece muita gente e sempre que para em algum semáforo, cumprimenta com intimidade algum “dotô” ou político da cidade. Ele é, também, o mototaxista fiel de gente como a Selma, a Denise e a Jane, para quem leva almoço religiosamente todos os dias. Ele carrega a Odete, que tem 70 anos “e dá um baile em muito mocinho que acha que sabe andar na garupa de uma moto”, diz o mototaxista.
Quem vê Natael sempre risonho e brincalhão certamente não sabe muito da história que tem por trás dele. Filho de Honório Carrijó e Luiza da Cunha, Natael mudou-se para Franca em 1971, quando tinha apenas 12 anos. A escolha foi de seu pai, que via na “terra do sapato” a possibilidade de trazer maior conforto à família através das oportunidades de trabalho na lavoura.
Então, no mesmo ano da morte de Coco Chanel e em que John Lennon declarou carreira solo abalando o mundo da música, o “sêo” Honório deu essa reviravolta na vida da família e veio de “mala e cuia” para Franca. Aqui, trabalhou muito na lavoura, tendo ao seu lado o filho Natael. Depois de alguns anos, “sêo” Honório construiu uma casa com as próprias mãos, na avenida Brasil, onde Natael morou boa parte da vida com a família.
Pouco depois, Natael começou a trabalhar como vigia no Clube Castelinho e, depois, como ajudante numa transportadora. No final dos anos 90, Natael foi mandado embora da transportadora. Nessa altura, ele tinha assumido mais responsabilidades pela família e ficou com receio de passar dificuldades, uma vez que seu pai já avançava na idade, sua mãe estava doente e ele tinha uma irmã de criação, mais nova.
Infelizmente, perdeu a mãe e o pai logo em seguida. Em 2001, sua irmã Aldeci também morreu. Natael entrou num estado de muita tristeza. Mas viu na situação que enfrentava, uma espécie de desafio e tirou forças das próprias dificuldades para tocar a vida. Com o dinheiro do acerto da transportadora, comprou uma Honda 125 ML, com “tanquinho quadrado” e passou a se dedicar às corridas. Acordava às seis da manhã e ia dormir às dez; rotina que mantém até hoje, ou seja, passa o dia em cima da “vermelhinha”, como chama sua moto nova. E assim foi escrevendo um novo capítulo na história do “Zero Um”.
As cerca de vinte corridas que faz por dia o levaram a conhecer todos os bairros e ruas da cidade e, também, a conhecer muita gente, muitas histórias. Ele costuma dizer que, embora haja tristeza no passado, ele vivenciou tantas outras histórias engraçadas, que elas ajudaram a “contrabalancear” e abre um largo sorriso, dizendo que “o segredo pra ser feliz é rir de si próprio”. Tanto é assim, que ele, de fato, tem sempre um sorriso para oferecer. Lhe pedi, ainda assim, que contasse uma história triste. Ele então ficou pensativo de repente e se manteve em silêncio desde a Prefeitura até chegarmos ao Senai, para, então, finalmente dizer: “Não tenho mais nenhuma”.
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