Amália- a Ressurreição não é uma biografia, nem um ensaio, muito menos uma obra de ficção. É um conjunto de textos independentes e memorialísticos de um jornalista de Luanda, Fernando Dacosta. O livro foi lançado em Lisboa, no início deste 2017, pela Editora Casa das Letras e apoio da Fundação Amália Rodrigues.
Radicado em Portugal, o autor também é romancista, dramaturgo e apaixonado pelo fado. O típico, poesia popular ao som de guitarras, sob a forma de quadras, quintilhas, sextilhas, decassílabos e alexandrinos. E aquele ao qual Amália Rodrigues conferiu valor mais alto, alçando-o ao status de arte representativa de um povo. Em ambos, inalienáveis, os temas ligados ao amor, à sorte, ao destino individual, ao cotidiano permeado pelo mistério.
Talvez fosse bom lembrar que o gênero, transmitido oralmente por gerações, se reconfigurou nos anos 20 graças à atenção de poetas como Henrique Rego, João da Mata, Gabriel de Oliveira, Frederico de Brito. E nos anos 50, pela contribuição expressiva do compositor Alain Oulman, que musicou versos de Pedro Homem de Mello, José Régio e até Camões.
É neste segundo momento que irrompe Amália Rodrigues, ultrapassando com sua voz e talento as barreiras da cultura e da língua. Durante décadas, e até pouco antes da sua morte, em 1999, caberá à artista o protagonismo da cena em nível nacional e internacional. Sua primeira saída de Portugal aconteceu em 1943, quando se apresentou na embaixada portuguesa em Madrid. No ano seguinte, esteve no Brasil, país que a aplaudiria muitas outras vezes. Depois, ganhou o mundo. Todas as capitais europeias, Paris muitas vezes; África; América; Rússia... E a grande surpresa, o Japão, onde esteve em cinco turnês. Amália Rodrigues conquistou estatuto de exceção porque a carreira plena de êxitos não se limitou a atuações que contemplassem apenas comunidades de emigrantes de língua portuguesa. Sua voz, interpretação e repertório falavam um idioma universal. Mais ou menos como a lírica de Camões, os versos de Fernando Pessoa e o futebol de Eusébio.
Amália, a ressurreição é constituído por fragmentos que retomam conversas, cenas, entrevistas e certa intimidade de que desfrutou o autor nas oportunidades em que pôde conviver com a artista, que lhe parecia ‘imbiografável’. Alertando o leitor, ele diz que “’por opção não se seguem nesta narrativa sendas biográficas comuns, nem históricas, nem cronológicas, nem documentais, mas rotas de afeições, as permitidas pela subjetividade (desobrigadas de contraditórios e de comprovas) inerente ao memorialismo libertário.”
Mesmo sem linearidade, o livro permite ao interessado conhecer a origem humilde da artista criada por avós maternos. Tendo começado a trabalhar menina, vendeu doces e frutas na Baixa, até que sua voz chamou a atenção em festa popular. Tinha dezenove anos quando subiu a um palco pela primeira vez como artista contratada. E só parou em 1994, cinco anos antes de morrer, aos 74. Tinha perdido a voz em decorrência de uma doença que lhe atingira as cordas vocais. Seu sepultamento atestou o alto grau do bem-querer do povo: milhares foram às ruas acompanhar o cortejo fúnebre; e em 2001 seus restos foram trasladados para o Panteão Nacional.
Chama a atenção na obra o fato de Amália ser perfilada em suas facetas mais humanas, desveladoras de uma mulher perplexa diante da vida, dos outros, das circunstâncias e de si mesma: “Se não me compreendo, como vão compreender-me os outros? Aliás, eu desconheço os outros, ninguém verdadeiramente conhece ninguém.” Nesse diapasão, depois de registrar uma conversa dela com a romancista francesa Marguerithe Youcenar, a propósito da letra de um fado que falava de fome e de desejo, Dacosta resgata outra escritora premiada, a portuguesa Agustina Bessa-Luis, que via Amália ”como uma Cassandra. Sabia do mistério, mas não sabia compreendê-lo, daí a sua imensa solidão. Cantava-o, mas cantá-lo não era suficiente, nem sempre é suficiente estar diante dos outros.” Uma frase expressiva da cantora fecha esses comentários intimistas: : “Por vezes chego a não saber o que fui, quem sou e no que me tornei. E isso assusta-me”.
Gostei do livro; e muito do capítulo que trata do lendário humor de Amália Rodrigues, às vezes satírico, outras sarcástico. Aos policiais da violenta PIDE, o Serviço de Inteligência de Salazar, que a interpelavam sobre suas simpatias pela gente da esquerda, responde que “Sim, sobretudo por Camões, vão prendê-lo?” Ela havia gravado Abandono, do poeta David Mourão-Ferreira, banido pela ditadura, desencadeando as iras e censuras do regime. “De outra vez -conta o autor- no Brasil, em uma recepção, um senhor lhe perguntou: mas que língua é essa você fala?, tendo ela lhe respondido ‘a mesma que tu, mas bem falada”. No início da carreira, quando ainda sofria preconceitos como outras fadistas de sua geração, ao entrar numa loja viu a vendedora solícita caminhar em sua direção, enquanto uma voz feminina de cliente reclamava: “-Mas tenho de ser atendida primeiro que ela, porque eu sou uma senhora”. Amália respondeu no ato: “-Ainda bem que o dizes, senão ninguém o saberia”. No auge da má fama da Sicília, quando
entrevistada por uma repórter de TV sobre sua ida à ilha italiana, respondeu usando a terceira pessoa: “Sim; Amáfia Rodrigues vai cantar lá”.
A respeito da palavra “ressurreição” que compõe o título, esclarece Dacosta em um dos fragmentos: “As nossas figuras identitárias são amantes funestos (Pedro e Inês) ou visionários exacerbados (D. Sebastião), dependendo seu esplendor dos poetas que os cantam ou do povo que os projeta. Outros nomes (infantes D. Henrique e D. Fernando, Padre Antônio Vieira, Santo Antônio, Camões, Bocage, Pessoa, Eça, Camilo, Amália) brilham-nos igualmente, pois sequiosos nos revelamos de sentir ardê-los em nós (...) A morte dos mitos significa a morte da memória, da cultura, do pensamento, daí a necessidade de os ressuscitarmos ciclicamente”.
Concordo.
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