Pura verdade


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Eu vi um ângulo obtuso
Ficar inteligente
E a boca da noite
Palitar os dentes.
 
Vi um braço de mar
Coçando o sovaco
E também dois tatus
Jogando buraco.
 
Eu vi um nó cego
Andando de bengala
E vi uma andorinha
Arrumando a mala.
 
Vi um pé de vento
Calçar as botinas
E o seu cavalo-motor
Sacudir as crinas.
 
Vi uma mosca entrando
Em boca fechada
E um beco sem saída
Que não tinha entrada.
 
É a pura verdade,
A mais nem um til,
E tudo aconteceu
Num primeiro de abril.
 
 
José Paulo Paes (1926-1998), 
poeta e tradutor

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